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Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, & leituras

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, & leituras

o sábado aperta

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O sábado aperta, com o sol a dar o ar da sua graça.
O sábado aperta, com o canto dos pássaros que já não rumam a sul, alimentados por aí assim que acaba o verão.
O sábado aperta, com os risos das crianças que percorrem, nas suas pequenas bicicletas, o parque em frente.
O sábado aperta, nas mãos dos vizinhos que leem um livro na varanda e que, de quando em quando, as enlaçam.
 
O sábado aperta ainda mais quando corre o mar com os olhos.
Quando lhe adivinha a areia próxima, agora inacessível, onde queria mergulhar os pés, sacudir a solidão e o interminável dos dias.
 
O sábado aperta quando lhe encerram os passos,
mas a vida aperta quando lhe proíbem o mar...
 
 
 
 

a solidão da vizinha

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O horário dos pombos da minha rua corre ao ritmo da solidão da vizinha do prédio em frente, do sexto esquerdo, para ser mais preciso.
 
Não é pessoa de se levantar cedo, porque os pombos só aparecem a meio da manhã. Quando ela traz numa mão uma chávena de café e, na outra, uma caixa plástica com coisas que os pombos, notoriamente, apreciam.
Aparecem numa revoada ruidosa e abicanham o que podem.
 
Depois, fazem um voo descontraído até às varandas vizinhas, onde se deleitam a deixar manchas que vão do branco a vários tons de verde.
 
Parece-me uma cor saudável para merda de pombo, também  devem ter o cuidado de consumir vegetais.
 
A vizinha sai para a voltinha diária.
Já a vi a discutir o frio com a senhora da farmácia e os perigos da carne vermelha com o talhante. "Dois bifes de peru", quando chega a vez dela.
Volta, para ficar sentada a tarde toda no mesmo cadeirão.
A ver televisão, pela postura quieta e olhar fixo.
 
Ao fim da tarde, que os pombos deitam-se cedo, chegam e começam a pousar nas varandas por ali. É também a hora para mais uma dose da comida-da-caixa-plástica.
Ralha com os glutões, acarinha os mais frágeis, fica até todos estarem satisfeitos.
 
Depois, volta para a sua existência solitária, triste, vazia.
Apenas preenchida por insignificantes diálogos com desconhecidos, televisão e uns pombos tolos e cagões.
 
Eu não preciso de nada disso.
Tenho a vizinha do prédio em frente, do sexto esquerdo, para ser mais preciso.


 
foto: uma rua de Lisboa, 2020