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Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, leituras e imperdíveis por aí

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, leituras e imperdíveis por aí

desafio cartas do correio - a ti

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Escrevo-te para um dia, quando as memórias se enevoarem, te lembres porque te amei e caminhei tão próximo de ti que o teu respirar ecoava na minha boca...
Amei-te para viver contigo a leveza da vida, acompanhar-te nos prazeres a que nenhum de nós se escusa, na alma hedonista e libertina que nos colou ao mesmo caminho.
Amei-te para caminharmos ao som de Bach, mas também para manter o passo quando a vida que nos derrama num conjunto dissonante de notas, espalhadas por uma pauta escrita na desarmonia da dor.
Te digo. Qualquer que seja a música ou o caminho, enquanto os nossos passos forem assim, sincopados, ajustados um ao outro, amorosos e salpicados de saltos de júbilo, caminharei contigo... 
 
 

Proposto pela Célia do blog Raios de Sol, uma carta para o desafio cartas do correio

 

 

 

 

 

...num campo de papoilas

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Se uma cor me servisse como sapato perdido depois do baile, era o vermelho. Aquele tom da flor aprisionada no celofane,  em molhos de afetos desajeitados, kitsch, de historieta de cordel.
Também aqueloutro, o da luz sanguínea lançada pela echarpe sobre o candeeiro, abat jour de filme de terceira, alongando a noite até à madrugada.
E a cor que me precede a nudez, na roupa que largo em salpicos vibrantes pelo chão, delicia de voyeur... E logo os beijos, que caem como cerejas, húmidos como bagos de romã, rolando pelo corpo até pararem num qualquer sítio já suado.
Ou as paredes nas tardes de motel, na pressa do sexo, que a taxa dobra e nada basta, nada chega para tanta cegueira por prazer, que vermelho é cor de fogo, de ânsia, cor de urgência, cor de agora-ou-nunca...
 
...mas hoje, não. Hoje sou só uma mulher exausta de tanto querer,  tanto amor e desamor, esvaída por esses corpos, deitada à luz num campo de papoilas.


 
 
fotografia: Terena, Alentejo
 
Escrito no âmbito do desafio da "caixa de lápis de cor" no blog da  Fátima,. Entram também o José da Xã A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Isabel, a Luísa de Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,, a Miss Lollipop, a Ana Mestre, Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue, o João-Afonso Machado Marquesa de Marvila  e a olga

 
 
 
 
 

verde vida, verde constante

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Verde eras tu
ano depois do outro,
nos primeiros dos dias que narravam
a Primavera.
 
Eras erva nas ervas
e flor à solta,
sem fronteira entre alma, rouparia ou
tardes de Março.
 
E assim te lembro,
mulher-equinócio,
nas cores do tempo renascido, luz em
verde constante.
 
 

Texto escrito no âmbito do desafio da "caixa de lápis de cor" da  Fátima,. Entram também o José da XãA 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Isabel, a Luísa de Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,, a Miss Lollipop, a Ana Mestre, Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue, o João-Afonso Machado e a Marquesa de Marvila 
 
 

Sonnet 43 from the Portuguese dito por Judi Dench | dia mundial da poesia

Elisabeth Barret Browning escreveu Sonnets from the Portuguese nos primeiros tempos de enamoramento com o que, após alguns reveses e um casamento secreto, se tornaria seu marido, Robert Browning. A obra foi publicada em 1850, mas o arrojo apaixonado de alguns poemas levou Elisabeth a apresentar a obra como uma tradução de poemas portugueses. 
Há diversas explicações para escolha do título mas "My little portuguese" ser o petit nom que o marido lhe dava é o mais provável. Robert apelidava assim Elisabeth pela sua tez morena, que achava semelhante à portuguesa.
 

 

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Elizabeth Barret Browning (Licença Creative Commons)

 
Judi Dench cresceu ouvindo o seu pai a recitar  e ela própria é uma extraordinária diseuse e amante de poesia, além da atriz que conhecemos tão bem. A cena do filme Skyfall, em que Judi recita o final de Ulisses, de Tennyson... é linda!
A atriz diz memorizar um poema por dia de forma a manter um cérebo ativo e uma mente jovem, o que me parece excelente e agradável receita.
Reunem-se no vídeo estas duas mulheres fantásticas, através da leitura de um dos mais conhecidos
poemas de Elisabeth Browning, o soneto 43 de Sonnets from the Portuguese, que aqui fica também por escrito.
 

 

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of being and ideal grace.
I love thee to the level of every day’s
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for right;
I love thee purely, as they turn from praise.
I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood’s faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints. I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life; and, if God choose,
I shall but love thee better after death.
 
 
 

a rosa rosa


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É um rasgão na tarde ainda fria

e dizem-me que é Primavera.

 

Sei que primeiro veio a surpresa,

depois a avidez,

depois a mão lançada

e um espinho, a carne aberta...

 

É Primavera!

Diz a voz da mãe,

alheada da minha mão sangrante,

na euforia de uma rosa

da cor que compete às rosas.

 

E décadas passadas,

vejo como tudo está certo:

a Primavera com maiúscula,

a alegria da mãe e a rosa rosa

 

 

Fotografia: uma rosa rosa, como a mãe diz que devem ser...

texto para o desafio da caixa dos lápis de cor https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/438209.html

 

 

 

azul-luz de Alentejo

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Um azul-luz que é cor de estar-em-fundo
do Alentejo amarelo-roxo de Primavera.

O abraço encarnado das papoilas em manto.
 
Um azul que se perde e faz de saudade
daquela Calípole que me corre no sangue.
 
Da voz da minha mãe nas saias que canto.
 
 
 
Fotografia: Juromenha, ao céu e ao Guadiana
texto para a cor azul claro do desafio da caixa de lápis de cor