Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, leituras e imperdíveis por aí

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, leituras e imperdíveis por aí

poetas e sonhadores - Coimbra, 1987

81C4A4CF-2C3D-4CE4-8B64-11332AD4E1AA

Corria o ano de 1987, quando uns quantos caloiros da Faculdade de Letras se juntaram para fazer uma revista de poesia.
Foram publicados três números de uma enorme ingenuidade, em folhas fotocopiadas e uma capa terrível. Mas lá, estavam todos os sonhos que a juventude acarreta, uma força inabalável e um deslumbramento pela poesia que nos uniu nesse projeto lindo.
 
Estes momentos foram recordados no bloque de um dos autores, Mails para a minha irmã, do João Paulo Videira, (meu colega de então em Línguas e Literaturas Clássicas) e, claro, tinha que os trazer também para este meu lugar.
 
Parafraseando o Jota Pê, "Venho saudar os jovens autores de então. Venho saudar o espírito empreendedor. Venho saudar a poesia. E, claro, venho saudar todos os leitores do mundo."
 
Dos vários autores, deixo um poema do Zé Fernando, que nunca mais vi; um do João Paulo, que continua um dos meus amigos mais queridos e, claro, um meu... e Viva o Dia Mundial do Livro...VIVA A POESIA! 
 
Tenho saudades de nada
Do que ainda não vivi.
E são tantas as recordações
Que por vezes as esqueço
E me disfarço por dentro a branco
E fujo de volta ao sítio onde estou.
(José Fernando )
 
 
Há três horas
Uma hora não chega.
Há três horas
Eram quatro.
Há três horas
Mil sonhos sonhei
Mil cantigas cantei…
O meu espectador não veio.
Há três vidas
Espero uma.
Há três vidas
E o espectador já morreu.
Há três vidas
Que não cesso
De procurar
O espectador que sou eu!
(João Paulo Videira)
 
O crime perfeito
Com o perfeito alibi
Foi eu ter nascido
Da alma que despi.
Ninguém o descobriu,
Ninguém desconfiou;
Foi o mar que me engoliu
E depois me vomitou.
(Euzinha aqui, meus Deuses)
 
 
 

da crónica, do memoir e do arquivar das palavras

344EF951-3D6A-4487-A62B-19B87246EA0D.jpeg

A crónica é, a par da poesia, o que mais prazer me dá escrever nos últimos tempos.
Por impaciência, cansaço mental ou apenas pouco tempo disponível, gosto de textos curtos. Agrada-me escrever num repente, na força do impulso. Normalmente pela madrugada, corresponda esta à hora a que me deito ou acordo.
 
Mais tarde, volto a alguns desses escritos e, se me agradam, retomo-os. Limo, desbasto, completo. E arquivo-os em blogs de textos finais: um para poesia e outro para crónicas.
Escolhi organizar o que escrevo assim, em blogs, porque o meu sentido estético se satisfaz muito mais neste formato que num ficheiro word deitado a uma qualquer nuvem! Fixá-los em papel, no computador ou disco externo são opções que me levaram a perder tudo o que fiz até cerca de 2015... Uma lição aprendida e uma longa história.
 
Mas voltando à crónica, encontro nela uma plasticidade que se molda ao que exige sair de mim no momento. A crónica é um relato de vida e pode ou não colar-se à vivência pessoal do autor. Em caso afirmativo entramos no campo da crónica pessoal, do memoir, o registo intimista de uma página de diário.
Sou, por temperamento e formação, uma observadora de lugares, de gentes. E fascinam-me as emoções, das tenebrosas às mais leves. É esta a base das minhas realizações como, neste caso, a escrita.
 
A crónica dá a liberdade de olhar, ver, mas simultaneamente viajar dentro de nós próprios... e criar, ficcionar.
Umas das cronistas que aconpanho, a Claudia Lucas Chéu, deixou há poucos dias um texto que ilustra muito do que é a crónica e a forma como, por vezes, chega a quem a lê:
"Acontece, às vezes, os leitores e as leitoras terem dificuldade em distinguir; basta que os textos estejam na primeira pessoa e que pareçam verosímeis, dada a biografia pública, e logo concluem estar perante uma confidência. Se lessem com atenção saberiam que não era possível eu ser anorética e enfarta-brutos, estudante de economia e médica, lésbica e devoradora de cavalheiros, algo pudica e bastante puta, entre muitas outras disparidades, tudo em simultâneo".
 
E é esta a liberdade que a crónica permite! Boa escrita. 
 
 
fotografia: as palavras que se deixam por aí.

uma máquina de escrever

30DBE1A2-C961-43F0-9747-DC885FABB689.jpeg

 
 
Foi ao som da música de uma máquina de escrever que registei os meus primeiros textos.
Como incentivo para continuar a escrever, ofereceram-me uma Messa verde e pesada, que era a minha grande companheira.
Esta já é mais leve, maneirinha, mas uma digna sucessora. Também Messa, a marca portuguesa.
 
Escrever à maquina ajudava-me a ter cuidado com a ortografia (as emendas não ficam bonitas) e com a minha dislexia. Lendo em voz alta e soletrando cada palavra, detetava melhor os truques do meu cérebro para me enganar, trocando-me sílabas na cabeça.
A minha primeira faculdade acabou mesmo por ser a de Letras, o que prova que podemos aprender a lidar com algumas situações de dislexia.
 
Gosto do barulho dos tipos, da lentidão que exige o processo. Pousar os dedos, tecla a tecla, na entrega profunda ao ato físico da escrita.
 
A pausa como método, a cadência como embalo do criar.
 
Agora, enquanto bato cada tecla, só faltam as vozes dos pais a cantar, ao fundo, para voltar aos anos 80 ...
...Faltavam, porque, fechando os olhos, soltam-se as suas vozes das paredes onde têm ficado guardadas, entre as minhas idas e as voltas à adolescência.

 
 

das portas que já não se abrem

A3A56569-FBF6-4357-9A3D-7817FDFAF4A7.jpeg

 
Olhar para portas que deixaram de ser abertas, ver os cortinados que ninguém já afasta, esfarrapando-se em abandono.
 
Degraus gastos por muitos anos de uso.
Crianças que os desceram a correr, avós que os subiram com dificuldade.
 
As paredes, que retinham o aroma a doce de tomate na época da apanha. A broas fervidas pelos Santos.
 
O cheiro a cavalo, azeite e vinho por toda a rua.
Os ruídos do lagar, da vinícola, das gentes no campo, mais ao longe.
 
Foi assim, um dia. Agora, não está ninguém... sons e cheiros só ficaram retidos, como uma impressão, na memória.
Fugaz, como fugaz é a vida dos que se lembram.
 
 
 
 
 

a névoa que somos nós

5542C843-11B4-4740-8667-603DC3F2A56B.jpeg

Revisitar dias antigos é sacudir teias de aranha a palavras que foram ditas,
desempoeirar olhares trocados há tanto tempo.
 
Tanto tempo que nesses dias se dava corda aos relógios.
 
Marcamos o pó do chão com os nossos passos.
Somos espectros de outras noites, do que fomos e ali jurámos ser... e não cumprimos.
Como se estas paredes fossem o grito de uma intenção, um amor largado a meio.
 
Paramos e sabemos que temos duas escolhas à saída: de um lado o sol, do outro a névoa.
 
Foi só o que permaneceu do velho Hotel, a opção de escolher luz ou sombra, sol ou chuva, separadas por uma curva. 
É assim, aquela curva que abraça o Monte Palace... uma metáfora da vida.
 
Olhamos um para o outro. E sem palavras, saímos para o nevoeiro, como sempre... a escolha que nos mostra porque estamos juntos.
 
É a paixão de entrar pelas névoas.
De rasgar o lado mais negro um do outro, a loucura de dar as mãos nas brumas sem saber onde terminam.
 
Estas paredes são, afinal, mais que repositório de memórias; são a marca da vitória na luta que travámos para sermos nós próprios.
 
 
 
foto: Hotel Monte Palace, São Miguel, 2017