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Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, leituras e imperdíveis por aí

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, leituras e imperdíveis por aí

das portas que já não se abrem

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Olhar para portas que deixaram de ser abertas, ver os cortinados que ninguém já afasta, esfarrapando-se em abandono.
 
Degraus gastos por muitos anos de uso.
Crianças que os desceram a correr, avós que os subiram com dificuldade.
 
As paredes, que retinham o aroma a doce de tomate na época da apanha. A broas fervidas pelos Santos.
 
O cheiro a cavalo, azeite e vinho por toda a rua.
Os ruídos do lagar, da vinícola, das gentes no campo, mais ao longe.
 
Foi assim, um dia. Agora, não está ninguém... sons e cheiros só ficaram retidos, como uma impressão, na memória.
Fugaz, como fugaz é a vida dos que se lembram.
 
 
 
 
 

a névoa que somos nós

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Revisitar dias antigos é sacudir teias de aranha a palavras que foram ditas,
desempoeirar olhares trocados há tanto tempo.
 
Tanto tempo que nesses dias se dava corda aos relógios.
 
Marcamos o pó do chão com os nossos passos.
Somos espectros de outras noites, do que fomos e ali jurámos ser... e não cumprimos.
Como se estas paredes fossem o grito de uma intenção, um amor largado a meio.
 
Paramos e sabemos que temos duas escolhas à saída: de um lado o sol, do outro a névoa.
 
Foi só o que permaneceu do velho Hotel, a opção de escolher luz ou sombra, sol ou chuva, separadas por uma curva. 
É assim, aquela curva que abraça o Monte Palace... uma metáfora da vida.
 
Olhamos um para o outro. E sem palavras, saímos para o nevoeiro, como sempre... a escolha que nos mostra porque estamos juntos.
 
É a paixão de entrar pelas névoas.
De rasgar o lado mais negro um do outro, a loucura de dar as mãos nas brumas sem saber onde terminam.
 
Estas paredes são, afinal, mais que repositório de memórias; são a marca da vitória na luta que travámos para sermos nós próprios.
 
 
 
foto: Hotel Monte Palace, São Miguel, 2017
 

dos lugares onde voltamos

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Voltamos aos lugares, sentimos o tempo que passa por eles e os transforma.
Sentimo-lo nas patines, nos feixes de luz onde nos deixamos ficar, observando as mil e uma partículas que por ali pairam...
 
Um tempo medido pelo valor que as pequenas coisas tomam, depois de tanto se ter tornado irrelevante.
 
Esse sim, é o tempo que nos mostra que fizemos o caminho. Não o de Cronos.



fotografia: um sítio esquecido pela Golegã, 2020