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Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, & leituras

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, & leituras

As ilusões de um Sábado

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Gosto de tudo o que me dá a ilusão de ser livre. Gosto das manhãs de sábado sem despertador, da maneira como se aproximam das tardes em que o único relógio que interessa é o que o corpo impõe.

Gosto dos pensamentos que não me leem, sejam as crenças mais profundas ou as imagens que em décimas de segundo me fazem questionar as sinapses.

Numa altura em que sabem tudo de mim cada vez que ligo o gps ou faço uma compra on-line... nestes dias em que a manipulação é tanta que, para ter acesso a outros pontos de vista de gente credível é preciso escavar fundo... a liberdade, é uma ilusão.

Neste tempo em que, a mando dos poderosos me retiraram e continuam a retirar liberdades fundamentais.

Valham-me os sábados. Valham-me os dias em que a agenda está limpa; em que só me rodeiam aqueles com quem não tenho que escolher palavras. E o sol, a praia, os livros e a arte.

Abençoadas as ilusões com que vamos trocando as voltas à realidade!

 

 

Alinhamentos

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Esta Primavera senti, como nunca antes, a cidade despertar ao ritmo da Natureza.
É um ror de desabrochares, uma turbulência de cores que não se fica pelos canteiros mas que se alastra às pessoas. E estas andam por aí em catadupa de risos e roupas frescas, explodindo em movimento depois de uma hibernação forçada. Antinatural e de uma violência que ecoará ainda por muito tempo. 
Um perfeito alinhar com a vida, uma alegria incontida ao sorver do ar do mar e dos cheiros dos jardins.
Que nunca a Primavera e as Gentes estiveram numa sintonia tão perfeita…
 
 
 modelo: Yana Malaki | Maio de 2021
 
 
 
 

retomar a vida nas mãos

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Retomar a vida nas mãos. Retomar Sábados e Domingos sem um vidro pelo meio. Dar férias às rotinas de viver aprisionada, na esperança de que sejam um adeus definitivo.
Voltar a viver o que me torna aquilo que sou e deixar de ser pela metade. Redescobrir como sou tão isto. Estes prazeres, estas manhãs hedonistas de sol na cara, mão na mão e sair por aí. A conversa com os amigos de longe que já posso ter perto e como são os seus risos, ah, os seus risos, dos mais ternos dos sons!
Isto é o meu normal. A vida como a quero viver. E aí vou eu, que não podendo ter de volta o tempo que me roubaram, não deixarei que este, agora, lhe faça companhia no poço das coisas invividas. Este, é para me lambuzar de prazer... 
 
foto: o mundo lá fora com tudo o que tem de maravilhoso. E não sejam das pessoas que não fotografam porque está lá um poste ou das que acham que o poste atrapalha. Retratem a vida, tirem partido do mundo como ele é! Com postes... :)
 
 
 
 

onde vou

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Sentei-me na beira da cama
a janela lá atrás e pensei
onde vou eu com estes pés nestes sapatos
este peito nesta blusa
esta alma que nao tem que vestir
esta voz sem palavras para usar
 
Onde vou eu, virada para dentro
costas voltadas à luz
e a luz, a luz a empurrar-me
e eu atirada aos dias
as horas  avulsas
num corpo bem trajado
numa alma sem roupa que lhe sirva
 
 
foto: Carcavelos 
 
 
 

As Tardes dos Amantes

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Levávamos uma manta, fazíamos as coisas que fazem os amantes que levam uma manta para o campo.
Falávamos dos pássaros de que não sabíamos o nome, coçávamos a pele um do outro, já vermelha do chicote das ervas.
 
A manta saiu da mala do carro, mas ainda andam por aí os corvos a que chamávamos tordos e as ervas, meu amor, ainda balançarão até nós se lá voltarmos.
 
Rias-te quando eu parava a comer bagas e mordiscar folhas.
Nunca conheci ninguém que comesse as ervas dos caminhos, dizias.
E eu (respondia) nunca conheci ninguém que me quisesse devorar pelos caminhos...
 
 
foto do J, a Diana Rosa num evento da Ana Luar
 
 
 

a rosa rosa


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É um rasgão na tarde ainda fria

e dizem-me que é Primavera.

 

Sei que primeiro veio a surpresa,

depois a avidez,

depois a mão lançada

e um espinho, a carne aberta...

 

É Primavera!

Diz a voz da mãe,

alheada da minha mão sangrante,

na euforia de uma rosa

da cor que compete às rosas.

 

E décadas passadas,

vejo como tudo está certo:

a Primavera com maiúscula,

a alegria da mãe e a rosa rosa

 

 

Fotografia: uma rosa rosa, como a mãe diz que devem ser...

texto para o desafio da caixa dos lápis de cor https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/438209.html