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Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, leituras e imperdíveis por aí

Crónicas do Chão Salgado

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As Tardes dos Amantes

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Levávamos uma manta, fazíamos as coisas que fazem os amantes que levam uma manta para o campo.
Falávamos dos pássaros de que não sabíamos o nome, coçávamos a pele um do outro, já vermelha do chicote das ervas.
 
A manta saiu da mala do carro, mas ainda andam por aí os corvos a que chamávamos tordos e as ervas, meu amor, ainda balançarão até nós se lá voltarmos.
 
Rias-te quando eu parava a comer bagas e mordiscar folhas.
Nunca conheci ninguém que comesse as ervas dos caminhos, dizias.
E eu (respondia) nunca conheci ninguém que me quisesse devorar pelos caminhos...
 
 
foto do J, a Diana Rosa num evento da Ana Luar
 
 
 

a rosa rosa


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É um rasgão na tarde ainda fria

e dizem-me que é Primavera.

 

Sei que primeiro veio a surpresa,

depois a avidez,

depois a mão lançada

e um espinho, a carne aberta...

 

É Primavera!

Diz a voz da mãe,

alheada da minha mão sangrante,

na euforia de uma rosa

da cor que compete às rosas.

 

E décadas passadas,

vejo como tudo está certo:

a Primavera com maiúscula,

a alegria da mãe e a rosa rosa

 

 

Fotografia: uma rosa rosa, como a mãe diz que devem ser...

texto para o desafio da caixa dos lápis de cor https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/438209.html

 

 

 

peste em tempo de peste

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Ler sem ver os olhos do outro é bom para um romance, para poesia.
Cenários em que a nossa imaginação corre livremente a par de quem escreveu, se apropria das narrativas e se aconchega a elas, ou as repele e coloca de lado.
Com os segundos sentidos que aferimos de acordo com a nossa própria realidade.
 
Num contexto de comunicação virtual, em que há leitura e escrita, existem também fenómenos de apropriação mental, emocional.
E muitas vezes, a partir da leitura, fazemos uma apropriação segundo o que somos, o que pensamos, escapando-nos a intenção do mensageiro.
Não conhecemos quem está por trás das palavras, não vemos os olhos, a expressão... e quantas vezes um olhar e um sorriso contextuam uma resposta, dão-lhe a verdadeira dimensão!
 
Não há emojis que cumpram o papel dos olhos nos olhos... e as leituras desviantes, em casos extremos seguidas da resposta de ofensa fácil, alargam-se a todas as plataformas.
São uma peste em tempos de peste.
 
E por isso, no mundo virtual, o ideal é ser concha. 
Adotando, para esta esta peste, as regras daquela outra: máscara e distanciamento!
Um dia voltarão as reuniões entre amigos de palavra fácil, as discordâncias enriquecedoras, as discussões acesas, longas e acompanhadas de uma bebida... olhos nos olhos. sorriso contra sorriso... e aí sim, haverá liberdade de Ser em cada palavra! 
 
 
Foto: Detalhe de porta no Cais Palafítico da Carrasqueira | Comporta | Fevereiro 2020
 
 

a névoa que somos nós

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Revisitar dias antigos é sacudir teias de aranha a palavras que foram ditas,
desempoeirar olhares trocados há tanto tempo.
 
Tanto tempo que nesses dias se dava corda aos relógios.
 
Marcamos o pó do chão com os nossos passos.
Somos espectros de outras noites, do que fomos e ali jurámos ser... e não cumprimos.
Como se estas paredes fossem o grito de uma intenção, um amor largado a meio.
 
Paramos e sabemos que temos duas escolhas à saída: de um lado o sol, do outro a névoa.
 
Foi só o que permaneceu do velho Hotel, a opção de escolher luz ou sombra, sol ou chuva, separadas por uma curva. 
É assim, aquela curva que abraça o Monte Palace... uma metáfora da vida.
 
Olhamos um para o outro. E sem palavras, saímos para o nevoeiro, como sempre... a escolha que nos mostra porque estamos juntos.
 
É a paixão de entrar pelas névoas.
De rasgar o lado mais negro um do outro, a loucura de dar as mãos nas brumas sem saber onde terminam.
 
Estas paredes são, afinal, mais que repositório de memórias; são a marca da vitória na luta que travámos para sermos nós próprios.
 
 
 
foto: Hotel Monte Palace, São Miguel, 2017