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Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, & leituras

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, & leituras

As ilusões de um Sábado

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Gosto de tudo o que me dá a ilusão de ser livre. Gosto das manhãs de sábado sem despertador, da maneira como se aproximam das tardes em que o único relógio que interessa é o que o corpo impõe.

Gosto dos pensamentos que não me leem, sejam as crenças mais profundas ou as imagens que em décimas de segundo me fazem questionar as sinapses.

Numa altura em que sabem tudo de mim cada vez que ligo o gps ou faço uma compra on-line... nestes dias em que a manipulação é tanta que, para ter acesso a outros pontos de vista de gente credível é preciso escavar fundo... a liberdade, é uma ilusão.

Neste tempo em que, a mando dos poderosos me retiraram e continuam a retirar liberdades fundamentais.

Valham-me os sábados. Valham-me os dias em que a agenda está limpa; em que só me rodeiam aqueles com quem não tenho que escolher palavras. E o sol, a praia, os livros e a arte.

Abençoadas as ilusões com que vamos trocando as voltas à realidade!

 

 

Da Finitude

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Lembro-me dos Verões eternos da infância, das tardes imensas em que, deitada na terra de olhos no nada, ouvia as cigarras. E as noites, em que se contavam estrelas cadentes e os grilos formavam então o coro que se ouvia.
Algures pelo Verão adentro, já nem nos kembravamos como começara e duvidávamos que as tardes arrefecessem ou as folhas caíssem, num sabor a eternidade que só há quando o resto podia nem haver.
Agora, os Verões chegam com sabor a efémero, vivem-se as tardes quentes com sofreguidão, na antecipação do fim e braços abertos a guardar o que couber de sol e mar.
 
Aqui, parada na rua, olho para as crianças do quarto esquerdo que saem e penso Será que também eles têm Estios infinitos como os meus? Será que gozam os dias na languidez da despreocupação ou no frémito da correria para a praia?
Depois, olho para a vizinha do primeiro, que sai de capeline e túnica branca, tomando o caminho da praia numa lentidão compassada. Vai sempre para o seu cantinho, entre a pequena enseada que as famílias com filhos pequenos preferem e o areal extenso ocupado pelos grupos de adolescentes barulhentos em redor das pranchas de surf. À tarde, o Clube com a piscina, mais perto de casa e mais sossegado.
 
E entre a minha infância, a infância das crianças do quarto esquerdo e a possibilidade da rotina de banhos da Dona Helena estar mais próximo que aquilo que penso, decido que Amanhã mando tudo às urtigas e vou à Costa!
Decisão tomada e já não me sabe tanto a azedo a finitude do Verão… ou da vida.
 
 

imperdoável

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Até já gostava de ficar triste, da quietude que lhe perdoavam nesses dias. Sem dever nada ao som do riso, e respirar só em suspiros.
Eram dias só dela, os que ficava no torpor da melancolia. Ninguém se aproximava, que tinham medo que se pegasse essa doença, agora que todos eram instigados a deixar de lado quem lhes retirasse o sorriso Instagramavel da cara, Um big brother mandava que todos fossem felizes, e todos eram, porque tudo ía ficar bem. Bastava fingir que eram contentes, que o contentamento chegaria. Aos que não o fossem, restava o exílio... e partiu. Antes real. 
 
Ser triste é ser leproso por estes dias e já nem aos poetas e apaixonados se perdoa. 
 
 

quando dói o primeiro domingo de maio

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A maior das solidões é a ausência do único amor incondicional. Da palavra que temos como certa, do abraço que sabemos sonhado quando estamos longe.
Perder os que estiveram connosco desde o início marca o envelhecer. É a barreira que não queremos passar, a linha que desejaríamos não cruzar.
Como um sonho, podemos perdê-los dum dia para o outro ou, como a esperança, podemos perdê-los lentamente. O luto vai-se fazendo devagarinho, em cada memória que é esquecida; a dor vai-se instalando em cada relato distante da realidade e, por isso, longe de nós num afastamento que se sente como físico.
Ir dizendo adeus a alguém que se ama tanto, ainda em vida, é a solidão a crescer como um espinho que se vai enterrando na carne.
O corpo humano vive, muitas vezes além da capacidade da razão o acompanhar. E não me parece que seja bom...
 
 

retomar a vida nas mãos

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Retomar a vida nas mãos. Retomar Sábados e Domingos sem um vidro pelo meio. Dar férias às rotinas de viver aprisionada, na esperança de que sejam um adeus definitivo.
Voltar a viver o que me torna aquilo que sou e deixar de ser pela metade. Redescobrir como sou tão isto. Estes prazeres, estas manhãs hedonistas de sol na cara, mão na mão e sair por aí. A conversa com os amigos de longe que já posso ter perto e como são os seus risos, ah, os seus risos, dos mais ternos dos sons!
Isto é o meu normal. A vida como a quero viver. E aí vou eu, que não podendo ter de volta o tempo que me roubaram, não deixarei que este, agora, lhe faça companhia no poço das coisas invividas. Este, é para me lambuzar de prazer... 
 
foto: o mundo lá fora com tudo o que tem de maravilhoso. E não sejam das pessoas que não fotografam porque está lá um poste ou das que acham que o poste atrapalha. Retratem a vida, tirem partido do mundo como ele é! Com postes... :)
 
 
 
 

Mil vezes o mundo na sua cabeça

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Todos os dias se perguntava quantos mais dias assim. Acordar, sair p’ra vida. Seria p’ra vida que saía, que “a vida está lá fora”, diziam.
 
Mentira. A vida lá fora não tinha nada, era um deserto árido. Dias corridos entre gente de passos repetidos e ouvidos selados por auscultadores. Olhares que nunca se encontravam com o seu o tempo suficiente para um reconhecimento da sua existência.
 
Mil vezes preferia a vida que se passava na sua cabeça.
 
Sentava-se num banco da praça e olhava os casais, tentando ver nos seus gestos sinais de amor ou ânsia de afastamento.
Olhava aquela mulher sentada no banco do metro, e procurava na expressão distante indícios da última noite de amor.
Seguia os passos da garota de mochila às costas, e conseguia ver os sonhos que não se iriam realizar e o vazio dos planos para o futuro.
 
Os seus olhos vagueavam de pessoa para pessoa criando vidas, dramas, passados e futuros, num argumento que dirigia entre a demência da adivinhação dos dias idos e o entusiasmo por um futuro que nunca ira ser seu.
 
Era muito melhor o mundo que corria num galope desenfreado pela sua cabeça que a vida que lhe era oferecida lá fora.
E por isso, caminhava sempre só, e era a sua melhor companhia.
 
 
 

Mitologia Clássica no Youtube

No meu último post, deixei-vos um poema (de 1987) de um amigo, o João Paulo. O Jota Pê nunca está quieto, tem sempre um projeto ou uma surpresa para dar ao mundo! Há uns dez anos lançou ao ar a sua vida certinha e partiu para Maputo, onde é professor na Escola Portuguesa.

É de Moçambique que tem escrito os últimos livros e que, recentemente, lançou no Youtube um canal que merece atenção: Rumores de Tinta. Começou por ligar episódios da mitologia clássica aos nossos dias, e na descrição do primeiro episódio podemos ler que se "revisita o mito de Prometeu, a criação da Humanidade e curiosas analogias com outros textos. Pelo meio, o intrigante papel da Mulher nesta trama!"

A mitologia é fonte dos enredos que melhor e mais profundamente retratam o género humano e, saleinte-se com o drama ou o imenso humor que passam nas vidas mais mundanas. Na verdade, o cerne do mito, as "histórias", permanecem atuais. No âmago, continuamos a ter as mesmas dúvidas, os mesmos desejos e propósitos. 

Ao fim de semana, a temática é um pouco mais leve e, neste, um brevissímo mas empolgante relato sobre Charlie Chaplin: A Voz e o Silêncio. Visitem o João Paulo!