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Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, & leituras

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, & leituras

Amar uma Calathea

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Apesar de gostar muito de ginginhas e acreditar piamente nos conselhos da Mariquinhas, é a regar as minhas plantas que dou de beber à dor. É na alegria das novas folhas que me esqueço do mundo, é com as mãos na terra que me ligo a mim própria, retorno ao que sou.
Cada planta é diferente da outra e, para as fazermos felizes, é preciso ler-lhes os sinais. Passar tempo a ver as pequenas mudanças que surgem com a luz, o calor e o frio. E saber esperar, que também é algo que as plantas nos ensinam.
A Calathea White Fusion é um retorno Kármico. Recorda-nos todos os nossos momentos menos brilhantes: é caprichosa, imprevisível, nunca se sabe o que dali vem, só sabemos que não estamos preparados. Sofre, coração!
Mas é também uma deusa, gloriosa e fascinante… e como uma mulher a sério…. vale bem a pena…
 
 
 

“O Inferno são os outros”

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Passam-me os posts de uma qualquer rede social na frente, e pululam os que me tentam convencer que há algo de errado comigo. Ou fico perto de pessoas que me fazem mal, ou carrego a carga de gerações, ou a minha relação com o meu pai não permite que “siga em frente”… E uma panóplia de soluções, do coaching à mesa radiónica.
É muito cómodo atribuir a factores externos os problemas que enfrentamos na vida, os mesmos erros que cometemos sucessivamente. É por isso que a religião foi criada; para podermos pedir a intervenção de algo que consiga alterar o que nós não conseguimos.
É igualmente aprazível afastarmo-nos de pessoas que são “tóxicas”… “mesmo os pais”, como dizia uma jovem num perfil patrocinado do Instagram. A sério? Vai tão longe o egoísmo? Vai, e é incentivado em nome do bem-estar. O que importa o que os pais fizeram por nós desde que entrámos no mundo; o que importa que o colega esteja a “sugar-nos a energia” porque está só e necessita de alguém que o ouça… não importa nada, o bem estar pessoal é o que interessa.
Mas que merda de mundo é este?

Lugares deixados para trás

 

 

Cada passo pelo empedrado das ruas, pelas casas onde já viveu gente e se desenrolaram vidas, nos faz sentir uma dor latente.
A igreja, a escola, o parque onde enferrujam os baloiços…. tudo o que ficou para trás. Tudo o que já foi vida.
 
Como é que se escolhe o que deixar e levar, quando nos impõem partidas e novos rumos? O espaço na memória ou o peso nos braços; o que nos leva a lançar mão de uma coisa e deixar outra?
 
Entre as casas desabitadas, de portas escancaradas às suposições do mundo, só as rosas permanecem.
Rosas iguais, rentes às paredes de tantas casas, nascem e secam todos os anos da mesma forma. Estacas de boa vizinhança espalhadas pelos canteiros, dadas como um pacote de açúcar ou um aceno.
Com tantas rosas partilhadas, de certeza alguém foi feliz aqui…
 
 
 
fotos: Concha & Jota, Junho 2021

Alinhamentos

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Esta Primavera senti, como nunca antes, a cidade despertar ao ritmo da Natureza.
É um ror de desabrochares, uma turbulência de cores que não se fica pelos canteiros mas que se alastra às pessoas. E estas andam por aí em catadupa de risos e roupas frescas, explodindo em movimento depois de uma hibernação forçada. Antinatural e de uma violência que ecoará ainda por muito tempo. 
Um perfeito alinhar com a vida, uma alegria incontida ao sorver do ar do mar e dos cheiros dos jardins.
Que nunca a Primavera e as Gentes estiveram numa sintonia tão perfeita…
 
 
 modelo: Yana Malaki | Maio de 2021
 
 
 
 

em tom de rentrée

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Chega o Sol e um desconfinamento com sabor a rentrée. A possibilidade de voltar a entrar num restaurante, num teatro, alegram-me o coração... sou agora uma adolescente  com autorização para sair à noite!

Há sempre um "mas", uma névoa. E a minha aparece quando vejo o enorme número de famílias que consideram passear à beira-rio ou beira-mar uma atividade física que tem que ser praticada sem máscara. É uma nuvenzinha no horizonte do meu otimismo... e só espero que a próxima vaga, predita há muito, não me arraste para casa a trabalhar. 

Até lá, vou gozar tudo a que tenho direito com o devido distanciamento, máscara, cuidados. Não só porque quero continuar a usufruir do mundo, mas porque quero garantir a possibilidade de trabalhar daqueles que vivem da restauração ou da cultura; porque há alunos que precisam de aulas na escola... como os que vão a exame nacional. 

E para aligeirar, aqui fica a

Lengalenga das Manhãs Iluminadas 

Queria uma casa
Com uma sacada
Onde esperar
Na madrugada
Sorrindo
Pedindo
Mais uma manhã
E só porque rima
Chá com hortelã

 

fotografia: Águeda, 2017

Lisboa, hoje...

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As saudades da luz de Lisboa!
A alegria de pisar a calçada e a tristeza das portas fechadas, das ruas-fantasma...
 
E outra tristeza. A dos pedintes que agora andam pela cidade, de olhar desesperado, envergonhado da pobreza recente. O desempregado da construção civil, da hotelaria, pedindo umas moedas para comer.
Pessoas que há um ano, num domingo destes, se cruzariam comigo passeando os filhos, param-me na rua porque têm contas, porque estão vivos.
São evitados pelos que desconfinam alegremente, como se viessem de uma temporada nas termas. Olhados como se tivessem obrigação de esconder a sua vida em estilhaços, para sossegar os que penduram arco-íris nas janela. Não está bem, não vai ficar bem. 
 
Lisboa... o que será de ti e dos que se acolhem nos teus vãos...