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Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, & leituras

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, & leituras

Lisboa, hoje...

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As saudades da luz de Lisboa!
A alegria de pisar a calçada e a tristeza das portas fechadas, das ruas-fantasma...
 
E outra tristeza. A dos pedintes que agora andam pela cidade, de olhar desesperado, envergonhado da pobreza recente. O desempregado da construção civil, da hotelaria, pedindo umas moedas para comer.
Pessoas que há um ano, num domingo destes, se cruzariam comigo passeando os filhos, param-me na rua porque têm contas, porque estão vivos.
São evitados pelos que desconfinam alegremente, como se viessem de uma temporada nas termas. Olhados como se tivessem obrigação de esconder a sua vida em estilhaços, para sossegar os que penduram arco-íris nas janela. Não está bem, não vai ficar bem. 
 
Lisboa... o que será de ti e dos que se acolhem nos teus vãos...
 
 
 

enfim, só...

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A hora em que o real acalma, tudo pára e ficamos no limbo entre o que é-ou-não-é, duvidando se as horas estão mesmo a passar.
 
Um tempo que não nos exige que participemos, de que podemos ser apenas observadores...
Um tempo que é nosso, só nós estamos nele.
 
Nestes tempos, a solidão é difícil de conseguir... e a noite traz a possibilidade de a chamar.
Também é necessária, a solidão. O tempo de mergulhar dentro de nós, enfrentar demónios e o melhor dos pensamentos.
Observar a nossa humanidade. Esquecer ideais de perfeição ou a cartilha judaico-cristã da culpa. Ser.
 
 
 
 
 
 
 
 

ah, a Liberdade...

Ora, a canção do Vitorino que hoje me tem andado pela cabeça...

 

"Liberdade, Liberdade
Quem a tem chama-lhe sua
Já não tenho liberdade
Nem de pôr o pé na rua
 
Liberdade, Liberdade
Quem a tem chama-lhe Dela
Já não tenho liberdade
Nem de me pôr à janela
 
São tão bonitas as Carbonárias
São tão catitas as Libertárias
Oh que lindo rancho da mocidade
Cantai raparigas, viva a Liberdade"
 
 
 
 
 
 
 

"ideias para adiar o fim do mundo" #2 Cronos e Kairós

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Continuo com Ailton Krenak, e o seu "Ideias para adiar o fim do mundo" na alma.
 
E entre as minhas minhas estratégias para trocar as voltas ao Apocalipse tem lugar de honra a hora de Sair de Casa. 
Se para uns estar dias inteiros em sossego, com mantinha e um chá é o paraíso... a mim, sufoca-me.
 Além de gostar mais de whisky que de chá, sou bicho de rua, preciso de respirar largueza e vistas sem paredes em volta. 
 
Para os gregos, o tempo era dois: Cronos e Kairós. O primeiro, o cronológico, mensurável. O segundo, aquele tempo que nos diz algo, o tempo especial, que não se quantifica mas se sente, sendo a sua única medida o quão precioso é para nós.
 
 E o meu Kairós é aquele em que caminho até ver o Bugio. Respirar o que me chega de maresia.
É-me proibido entrar pela areia e molhar as mãos no mar. Mas há-de vir o dia. Meu mar.
 
 ... Eu espero, que o meu Kairós basta para fazer face ao Cronos. Eu espero...

 

 

 

miúdos, não deixem de sonhar...

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Não sendo o ensino à distância a solução ideal em qualquer das dimensões da aprendizagem, não vai ter as implicações catastróficas que por aí  auguram. 
Temos situações terríveis o ano todo, e ninguém lhes dá esta voz.
 
Trabalhei no concelho de Montalegre, Castanheira de Pêra, Amadora. Conheço bem os locais onde só se apanha rede espanhola, aqueles onde muitos faltam às aulas porque há um nevão. E aqueles onde, quando chegam à escola, já trataram do gado. Ou dormiram com ele, para terem calor.
E muito mais, dificuldades não faltam.
 
E os alunos que têm vindo a ser prejudicados, inclusive em anos de exame, por não terem professores já o ano vai a meio.
E isto não acontece nas aldeias, mas sim nas cidades, onde um professor nao pode aceitar um horário incompleto, a ganhar quatrocentos ou seiscentos euros e pagar trezentos por um quarto.
Porque, realmente, ninguém quer esta profissão tão fácil... porque será?
Este são factos que não dependem de uma pandemia. Já existiam e vão piorar.
 
Quanto à perda de conhecimentos que se irá refletir irremediável e desastrosamente no futuro... Ei!!! Gente!!! Onde está a geração que fez anos com passagens administrativas no 25 de abril? E aqueles que, mais tarde, tiveram anos inteiros sem professores a várias disciplinas e, quando chegavam, só tinham o sexto ano dos liceus?
São todos ignorantes e incompetentes? Ora...

Não. Não vai ser o ideal. De forma alguma. Mas não é presságio de um futuro de ignorantes. Pelo menos, não por causa da pandemia...
 
É ter calma. Dar segurança aos jovens.
É assim que amanhã receberei os meus três níveis de secundário.
Dizer-lhes que sim, continuem a sonhar. Sonhem, invistam no conhecimento.
Sonhem. Não deixem de sonhar... 

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fotos:
* Bandeirola da "Purple Pineapple Design", papelaria sustentável e feita com amor... por uma ex-aluna. 
* Sweatshirt pela "Super Nervosa", micro empresa de moda sustentável de outra ex-aluna. 

é isto! 
 
 
 
 

o leitor do jornal

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Hoje, saí para comprar o jornal.
Ler o jornal em papel foi um hábito que retomei neste confinamento, o que pode parecer contraditório. Mas não é. Foi, precisamente, por já não suportar tanto ecrã!
 
De manhã à noite, trabalho e lazer têm vivido, sobretudo, através deles, os ecrãs.
E por mais que os gadgets nos digam que têm o não-sei-quê que previne enxaquecas e afins... não. Sinto-me numa overdose daquilo... ecrãs.
 
Ora, não podendo fugir ao trabalho (por obrigação), nem a outros prazeres de que não prescindo (por devoção)... resta-me reduzir o tempo destes últimos e retomar outros hábitos.
Como limitar-me aos jornais e livros em papel.
 
Felizmente, os jornais continuam a ser distribuídos em papel. E não por mim... a minha questão é irrelevante.
Mas por causa de pessoas como aquele senhor ali, na foto.
Era, como eu, frequentador do café em frente, agora fechado, e que tem uns scones fantásticos.
 
Não tem um telemóvel com internet, muito menos computador. A ligação dele ao mundo vem do jornal, que compra religiosamente.
E hoje, ali estava, frente ao café de portas fechadas, lendo o seu jornal.
 
Passei em frente, sorri-lhe com os olhos, acenei a mão.
Ele acenou de volta. E talvez tenha sorrido, também...
 
 
 
 

o presente congelou

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Algum tempo atrás passou, na RTP2, a última entrevista a Camilleri.

É um daqueles programas gravados e vistos vezes sem conta... a leveza da memória, a simplicidade de quem diz o que sente.

Mas o que me tem tocado mais é, exatamente, algo a que há um ano atrás, não daria qualquer importância: o aconchego dos livros e dos objetos que nos rodeiam.

Para mim, a casa sempre foi um sítio onde se está entre o trabalho, as viagens, os encontros com os amigos... ou onde estes se recebem. 

Agora, dou por mim a procurar conforto, precisamente, nas pequenas coisas que me rodeiam... e cresceram em número. Na verdade, não resisti a ir buscar a velhos caixotes memórias de um passado que, agora, não posso substituir pelo presente... 

Porque o presente congelou.