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Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, leituras e imperdíveis por aí

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, leituras e imperdíveis por aí

castanho-tempo

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A garganta seca, o peito aperta, as mãos seguram o volante com a pouca força que ainda sinto, agora que me aproximo. Corro a estrada devagar e acompanha-me, pela esquerda, o encrespar leve no azul marinho, o mesmo das tardes dos que estão e dos que partiram. "Vês, filha, o mar está cheio de carneirinhos."
 
Vejo já o fim da praia, onde a faixa de areia é quebrada pelos rochedos batidos às ondas. A espuma desfaz-se contra o castanho da pedra e, ao longe, a silhueta negra do Cabo entrando no Atlântico e deixando, para trás, as copas em verde profundo da Serra. Que oculta, entre outros mistérios, o da minha melancolia. Já ali à frente. "A Peninha nunca te contará nada; é magia, e na magia só te descobres a ti própria".
 
Anoitece, naquela indecisão que a luz toma quando se desfaz e o céu sugere já a noite, num azul cobalto que logo se desmancha em mil laranjas. Antes de partir até à alvorada, a luz brinca por ali, hesitando entre a lembrança do azul claro e límpido da tarde e os rosas e amarelos do adeus ao dia. "Sabes que luz encerra todas as cores, e há olhos que vêem mais que sete?"
 
O meu caminho é o da Casa. E da Casa, lembro-me que se ouve o mar entre o cheiro a citrino e a floresta, que é rugosa ao tacto e só se alcança depois de um caminho íngreme e  estreito. Este, por onde agora entro a custo, sentindo a agressão  dos arbustos, incomodados pela invasão. "Claro que moramos no fim da subida, assim só vem quem nos quer mesmo ver".
 
Passo árvores e muros, o coração acelera... ali está ela, a Casa. Abraçada por uma Primavera de lúcia-lima, que rebenta agora em verde claro de folha nova gritando "não" ao Outono do abandono. Um Outono que  foi ficando, alastrando-se nas folhas caídas, algumas lembrando ainda o vermelho dos últimos tempos de árvore. Logo antes da queda sobre os muros, agora dum castanho escurecido pelo abandono. Castanho-tempo, castanho-memória, patine de esquecimento, do deliberado deixar dos dias lá atrás... é perigoso voltar aos sítios onde fomos felizes, diz-se. Aos sítios que ficaram pertença dos nossos mortos.
 
Mas há lugares que nos possuem;  há madeiras, paredes e muros que, mesmo desprezados, sabem a linha reta para a nossa alma. E foi assim que eu nesse fim de dia, sem escapatória, num olhar feito de abraço, só pude gritar bem alto "cheguei a Casa"!

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Escrito no âmbito do desafio da "caixa de lápis de cor" no blog da  Fátima,. Entram também o José da Xã A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Isabel, a Luísa de Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,, a Miss Lollipop, a Ana Mestre, Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue, o João-Afonso Machado Marquesa de Marvila  e a olga

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