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Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, leituras e imperdíveis por aí

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, leituras e imperdíveis por aí

amanheceres amarelo-limão

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Se tivesse que escolher uma só planta para me amanhecer, seria um limoeiro.
Gosto de tudo, nos limoeiros. O verde profundo da copa; o fruto amarelo, devolvendo a luz; as flores miúdas e o cheiro, ah, o cheiro... deixar as janelas abertas para acordar de espírito perfumado e ganas de viver!
Os limoeiros são uma árvore caprichosa, o que só me faz amá-los mais, que os quintais estão cheios de flora previsível.
Ora dão limões quando mais nenhuma árvore dá fruto, carregados e anárquicos, coexistindo flor e fruto maduro, impetuosos... ora estão tempos sem dar sinal de vida, ignorando sobranceiros os olhos vigilantes que procuram o primeiro sinal de amarelo.
Aos meus limoeiros, ninguém impõe uma pedra para os tornar arbustos de jardim. Fazem o que querem, e eu recebo-os em manhãs amarelas como uma dádiva de luz.


Fotografia: limoeiro da janela de um meu quarto, numa das minhas manhãs de eleição.
texto para o desafio da caixa dos lápis de cor https://porqueeuposso.blogs.sapo.pt/438209.html

a razão de escrever

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Tenho pensado nas razões que me levam escrever.
 
Por estes tempos, o acto de escrever é o meu luxo de egoísmo ao final do dia. O meu salute per aquam em que me banho em ideias e palavras.
É o momento em que deixo de pensar em todos aqueles que agora me ocupam os dias e as emoções, dentro e fora de casa. É o momento em me vejo só.
 
E será por isso que, nos últimos tempos, escrevo sobretudo sobre mim, como só eu me interessasse. 
Mas na realidade este é, no final do dia, o tempo em quem me resgato. Me recupero da exaustão de me dar a dobrar, tentando diminuir a distância, ludibriar o espaço cavado entre nós.
E a escrita surge, como um acto solitário e, inevitavelmente, voltado para mim. Procurando-me entre "os despojos do dia". Equilíbrio.
 
E vocês, escrevem pelas mesmas razões de há um ano atrás?
 

bilhete-croissant

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Hoje, num mimo de Domingo, surge um croissant quentinho, que desde logo lhe anima a alma - "tenho a alma muito perto do estômago", costuma dizer, "uma chatice". 
Prato escolhido a preceito (estava no fundo da pilha, de certeza), aquele olhar que a encanta e um "Paris em casa" lançado ao ar...
E são as memórias da primeira viajem que fizeram juntos; os passeios pela cidade em que invariavelmente lhe sai um "adoro o nome desta loja " quando passa pela Paris em Lisboa.
E voltaram a esses dias, fizeram planos para os repetir, porque aquilo que importa e os tornou encantados, permanece - a paixão.
 
E tudo isto através de um croissant... há bilhetes para a felicidade onde menos os esperamos!
 
 
 

crónica do interruptor

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Aprendi a circular de uma sala para a outra do quotidiano fechando a porta à saída.
Quando estou no trabalho, só penso no trabalho, não "espreito" o Instagram, o Sapo. Estou lá totalmente.
Se entro no tempo da família ou da vida social, não vou ao mail do trabalho, nem penso nele.
 
Não fui sempre assim. Algures no tempo trabalhei em casa e tive filhos pequenos, e os meus dias eram uma tremenda salganhada. Um pouco como se devem agora sentir os pais em teletrabalho com a criançada à volta. Ui!
Também passei a fase de não me conseguir desligar do trabalho. Era terrível, as insónias e ansiedade sempre à espreita.
 
Depois, aprendi a ter interruptores que me desliguem do que não quero no momento.
Ando pelo Instagram, por onde sei do que se passa no meu concelho, de espetáculos e eventos on-line... redescobri-o na pandemia.
Há um ano vim para aqui à Sapolândia, onde gosto do ritmo pausado que lhe posso imprimir.
Tenho a minha lista de leitura, espreito os últimos posts, fico pelos textos que gosto. E quando tenho vontade deixo as minhas impressões, respondo às dos outros. Mas não por obrigação, que já tenho muitas... só por diversão. É um interruptor para desligar de outras salas, o Sapo.
 
Entre outros interruptores estão as miniaturas (adoro casas de bonecas), artes têxteis, investigação, autossuficiência, fotografia, leitura, escrita... e a pintura, que hoje ilustra a minha crónica do interruptor!
Na minha vida, ligar e desligar foi uma aprendizagem demorada. Mas valeu a pena...
 
 
 

hora de ponta cá no prédio

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Sábado e Domingo há hora de ponta no vestíbulo cá do prédio.
Assim, sem se suspeitar, fomo-nos encontrando lá em baixo, mutuamente surpreendidos por depararmos com vizinhos de cabelo desalinhado, as calças moldadas ao sofá e, nos pés, claramente o que era mais fácil de calçar e estava ali à mão. Ao pé, digo eu.
 
Uns descem, outros sobem. Uns só se cruzam, outros partilham um quarto de hora de conversa.
 
Ali ficamos, no círculo alargado de distância física mas na aproximação do sorriso nos olhos, no meneio da cabeça que cumprimenta quem chega e quem vai. . Na verdade, nunca tínhamos estado assim, conversando sobre a falta que faz a praia, o aborrecimento de estar em casa, os destinos adiados sine die, as saudades de alguém...  São palavras trocadas sobre os pequenos nadas dos dias.
Para algumas destas pessoas são estas as únicas conversas banais, mas reais, que têm durante a semana. Sem tecnologia como intermediária. Risos e vozes sem a pressa do supermercado ou a impessoalidade do carteiro.
 
E em nome cá do prédio, agradecemos esta oportunidade de nos conhecermos melhor à política dos serviços de entregas de refeições, que não sobem até aos apartamentos. Assim, lá tivemos que começar a descer ao vestíbulo para esperar o almoço... e as palavras nasceram, como já plantadas num terreno que só esperava rega. 
 
E enquanto subo com a refeição para os meus, vou pensando como estamos sedentos de conversas a sério, com gente do lado de cá do ecrã. Findo o confinamento, voltarão as rotinas que desejamos e, claro terminarão estas pequenas pérolas que a vida também tem para nos oferecer agora. Mas os bons-dias serão sempre mais bonitos!

 
foto: Paris, mas podia ser a minha rua... haja luz nos olhos!
 
 
 
 

da crónica, do memoir e do arquivar das palavras

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A crónica é, a par da poesia, o que mais prazer me dá escrever nos últimos tempos.
Por impaciência, cansaço mental ou apenas pouco tempo disponível, gosto de textos curtos. Agrada-me escrever num repente, na força do impulso. Normalmente pela madrugada, corresponda esta à hora a que me deito ou acordo.
 
Mais tarde, volto a alguns desses escritos e, se me agradam, retomo-os. Limo, desbasto, completo. E arquivo-os em blogs de textos finais: um para poesia e outro para crónicas.
Escolhi organizar o que escrevo assim, em blogs, porque o meu sentido estético se satisfaz muito mais neste formato que num ficheiro word deitado a uma qualquer nuvem! Fixá-los em papel, no computador ou disco externo são opções que me levaram a perder tudo o que fiz até cerca de 2015... Uma lição aprendida e uma longa história.
 
Mas voltando à crónica, encontro nela uma plasticidade que se molda ao que exige sair de mim no momento. A crónica é um relato de vida e pode ou não colar-se à vivência pessoal do autor. Em caso afirmativo entramos no campo da crónica pessoal, do memoir, o registo intimista de uma página de diário.
Sou, por temperamento e formação, uma observadora de lugares, de gentes. E fascinam-me as emoções, das tenebrosas às mais leves. É esta a base das minhas realizações como, neste caso, a escrita.
 
A crónica dá a liberdade de olhar, ver, mas simultaneamente viajar dentro de nós próprios... e criar, ficcionar.
Umas das cronistas que aconpanho, a Claudia Lucas Chéu, deixou há poucos dias um texto que ilustra muito do que é a crónica e a forma como, por vezes, chega a quem a lê:
"Acontece, às vezes, os leitores e as leitoras terem dificuldade em distinguir; basta que os textos estejam na primeira pessoa e que pareçam verosímeis, dada a biografia pública, e logo concluem estar perante uma confidência. Se lessem com atenção saberiam que não era possível eu ser anorética e enfarta-brutos, estudante de economia e médica, lésbica e devoradora de cavalheiros, algo pudica e bastante puta, entre muitas outras disparidades, tudo em simultâneo".
 
E é esta a liberdade que a crónica permite! Boa escrita. 
 
 
fotografia: as palavras que se deixam por aí.

crónica do amor próprio

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Há dias em que não me suporto.
Principalmente aqueles em que dou por mim em alhadas que poderia bem ter evitado... e até sabia no que ía dar, mas não me contive e tau, falei.
E digo para mim 'dasseeee mulher, como é que tu fazes as mesmas asneiras depois de décadas a saber que dá mau resultado?!
E a gula! Meus deuses, sei que não posso comer queijo da serra, fico com enxaquecas terríveis... mas como. Além de outras coisas de que nem vale a pena falar.
 
Detesto fazer tarefas de casa. Só gosto de cozinhar e graças pela Bimby, que trabalha quase todos os dias!
Ora, a senhora que cá vinha ajudar deixou de trabalhar com medo do Covid. Então as coisas vão-se fazendo mas sem qualquer disciplina, e nem me passa pela cabeça trabalhar para os três adultos que vivem comigo, era o que faltava.
Ponho o irobot a passear, e os homens que limpem a sanita, que eu faço xixi sentada. E limpo a banheira e a parede quando tomo duche, dá um resultadão!
 
E reconheço, não gosto nada de mim assim.
Queria ser refletida, comer ajuizadamente, arrumar a casa e lavar a casa de banho, fazer a cama todos os dias. E não deixar roupa na cadeira.
 
Felizmente, fui capaz de educar dois rapazes que sabem fazer tudo, senão estava atulhada em cotão!
E quando escolhi o segundo marido, certifiquei-me que vinha bem treinado a arrumar a cozinha, estender e recolher a (nossa) roupinha, entre outros talentos que não vêm ao caso.
 
Mas mesmo não gostando de mim assim, amo de paixão estes gajos que vivem comigo.
Bem, o meu filho mais velho tem em casa as obras de Santa Engrácia, mas pronto, podia ser pior.
 
Mas enfim, isto para dizer que acho que alguém que não se ame é perfeitamente capaz de amar os outros! Oi eu aqui!
E agora, vou trabalhar mais um bocado que nisso... sou boa! 
 
 
 
foto: bifanas em execução ;)