Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, & leituras

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, & leituras

este teletrabalho vai dar umas memórias...

ABCAAA45-82E5-4255-BF66-DB109E034D97.jpeg

Cá por casa, começa a dança do teletrabalho às 8.15h, com as primeiras aulas.
Acaba às 21.00, quando o miúdo que está a fazer formações marafadas (nerd!) e mestrado on-line termina.
Para compor, o gato mia desalmadamente, tem 18 anos, e não percebe o que se passa aqui!
To-dos-os-di-as
 
E pelo dia todo, vozes e mais vozes, continuamente. Vozes de cá para lá, de lá para cá, desconfio que algumas já moram na minha cabeça.
Acho que as ouço, como aquelas peças peças do tetris que víamos a cair quando fechávamos os olhos!
 
Na luta pelo sinal de internet e a impossibilidade de estarmos juntos, a falar e a ouvir, estamos distribuídos pela casa.
Eu, além de ser aquela que come os restos do frigorífico, sou a trabalhadora remetida para o quarto.
 
Assim, depois de ter enviado aos meus alunos um documento com as diversas orientações, cá estou em pleno incumprimento, sentada na cama!
Com um belo fundo estrelado do Classroom, Vou-me mexendo para a esquerda, para a direita, no esforço de que eles não reparem. Vamos ver até quando... 
 
Mas sabem que mais? Estou a repor aulas, farta de estar na cama, está tudo de pantanas cá em casa, mas estou feliz!
Estou à distância de um link do meet, sinto-me a acompanhar os miúdos... e gosto tanto de ver as caras deles! estamos juntos nisto e vamos conseguir!
 
Quando a loucura se instalar, ataco a garrafeira ☺️
 
 
 
 
 
 
 
 

o leitor do jornal

69E2D301-8002-431F-862F-9647BFE21574.jpeg

 

Hoje, saí para comprar o jornal.
Ler o jornal em papel foi um hábito que retomei neste confinamento, o que pode parecer contraditório. Mas não é. Foi, precisamente, por já não suportar tanto ecrã!
 
De manhã à noite, trabalho e lazer têm vivido, sobretudo, através deles, os ecrãs.
E por mais que os gadgets nos digam que têm o não-sei-quê que previne enxaquecas e afins... não. Sinto-me numa overdose daquilo... ecrãs.
 
Ora, não podendo fugir ao trabalho (por obrigação), nem a outros prazeres de que não prescindo (por devoção)... resta-me reduzir o tempo destes últimos e retomar outros hábitos.
Como limitar-me aos jornais e livros em papel.
 
Felizmente, os jornais continuam a ser distribuídos em papel. E não por mim... a minha questão é irrelevante.
Mas por causa de pessoas como aquele senhor ali, na foto.
Era, como eu, frequentador do café em frente, agora fechado, e que tem uns scones fantásticos.
 
Não tem um telemóvel com internet, muito menos computador. A ligação dele ao mundo vem do jornal, que compra religiosamente.
E hoje, ali estava, frente ao café de portas fechadas, lendo o seu jornal.
 
Passei em frente, sorri-lhe com os olhos, acenei a mão.
Ele acenou de volta. E talvez tenha sorrido, também...
 
 
 
 

o presente congelou

7C2C00CD-E1B6-46D2-9A06-06E12EDB02A8.jpeg

Algum tempo atrás passou, na RTP2, a última entrevista a Camilleri.

É um daqueles programas gravados e vistos vezes sem conta... a leveza da memória, a simplicidade de quem diz o que sente.

Mas o que me tem tocado mais é, exatamente, algo a que há um ano atrás, não daria qualquer importância: o aconchego dos livros e dos objetos que nos rodeiam.

Para mim, a casa sempre foi um sítio onde se está entre o trabalho, as viagens, os encontros com os amigos... ou onde estes se recebem. 

Agora, dou por mim a procurar conforto, precisamente, nas pequenas coisas que me rodeiam... e cresceram em número. Na verdade, não resisti a ir buscar a velhos caixotes memórias de um passado que, agora, não posso substituir pelo presente... 

Porque o presente congelou.

 

horta em dia de Senhora das Candeias

8B765592-121D-4DCB-BCE4-F30653DFE445.jpeg

Hoje é dia da Senhora das Candeias.

Se a Senhora rir, está o inverno para vir. Se chorar, está o inverno a passar.

Por aqui, nem ri nem chora, pelo que fico na incerteza. Estado a que já estou habituada.

Foi dia de lançar algumas sementes aos vasos e outras, às caixas de ovos... que nascerão dentro de casa, só saindo como pequenas mudas lá para Março. Saem, se as noites nao estiverem muito frias. 

Vivendo num sítio de temperaturas amenas, faço a minha "horta" nesta altura... e não faço só para mim. Faço também para os meus amigos para quem uma semente é um mistério maior que uma gravidez... 

A foto (horrorosa, que vergonha) é um canto resguardado duma varanda, onde esperemos que a vida brote.
Não é a lezíria onde cresci, mas basta para matar saudades de sentir as mãos na terra...

 

 

peste em tempo de peste

2912 comporta Red.jpg

Ler sem ver os olhos do outro é bom para um romance, para poesia.
Cenários em que a nossa imaginação corre livremente a par de quem escreveu, se apropria das narrativas e se aconchega a elas, ou as repele e coloca de lado.
Com os segundos sentidos que aferimos de acordo com a nossa própria realidade.
 
Num contexto de comunicação virtual, em que há leitura e escrita, existem também fenómenos de apropriação mental, emocional.
E muitas vezes, a partir da leitura, fazemos uma apropriação segundo o que somos, o que pensamos, escapando-nos a intenção do mensageiro.
Não conhecemos quem está por trás das palavras, não vemos os olhos, a expressão... e quantas vezes um olhar e um sorriso contextuam uma resposta, dão-lhe a verdadeira dimensão!
 
Não há emojis que cumpram o papel dos olhos nos olhos... e as leituras desviantes, em casos extremos seguidas da resposta de ofensa fácil, alargam-se a todas as plataformas.
São uma peste em tempos de peste.
 
E por isso, no mundo virtual, o ideal é ser concha. 
Adotando, para esta esta peste, as regras daquela outra: máscara e distanciamento!
Um dia voltarão as reuniões entre amigos de palavra fácil, as discordâncias enriquecedoras, as discussões acesas, longas e acompanhadas de uma bebida... olhos nos olhos. sorriso contra sorriso... e aí sim, haverá liberdade de Ser em cada palavra! 
 
 
Foto: Detalhe de porta no Cais Palafítico da Carrasqueira | Comporta | Fevereiro 2020
 
 

os dias dos outros

E75668A0-B28A-4010-9D90-6E2AF11298DC.jpeg

Dias seguidos por dias. No mesmo casulo fechado ao frio, fechado aos outros.
Começam a intrometer-se nos pensamentos os sons alheios, antes ignorados por um cérebro em contínua laboração.
 
Fico a saber que há por aqui uma janela perra, só abre depois de um safanão.
Deve ser de um quarto, é sempre aberta de manhã, pela mesma hora e fecha-se pouco depois, com outro ruído seco. Hum. Soa-me a arejamento.
No sexto direito, mas não garanto, que tenho pouco ouvido.
 
Alguém fuma muito, e dentro de casa. O cheio sobe pela ventilação, invade a casa de banho.
Deve ser a vizinha do primeiro andar, que vive sozinha e nestes anos nunca largou um "bom dia" ou um sorriso.
 
Nunca vi a vizinha do terceiro. Tem uma empregada interna com uma farda verde e azul turquesa.
Que tem medo de andar de elevador, sobe as escadas carregada de compras.
Nunca vi a vizinha, mas deve ser uma pessoa alegre. Ninguém sorumbático escolheria aquelas cores para uma vestimenta.
 
E na apropriação dos dias dos outros, vou ocupando os meus próprios dias...
 
 

primeiro dia de férias

B312B584-3658-45CB-8083-82BACCA44288.jpeg

Querido Diário

O primeiro dia de férias foi uma emoção.

Fiz uma paella fantástica que depois digeri no Continente, correndo pelos corredores a ver se batia recorde do tempo que lá passo.
Levei duas máscaras, dizem que agora é trendy contra o vírus inglês... 

Era bom que as compras dessem para duas semanas, mas não acredito, estes fulanos comem que se fartam. 

Agora é que me arrependo de ter ofertado a arca frigorífica à ex-sogra. Fazia-me falta. E a sogra também, sempre me fazia uns almoços.

Fui buscar o filho mais velho ao trabalho para não andar no comboio. Mentira, a verdade é que a essa hora já estava outra vez farta de estar em casa. 

Respondi ao mail de uns alunos que perguntavam que, já que as aulas são proibidas, se eu podia "dar workshops de História da Cultura e das Artes on-line". Parabenizei-os pela criatividade nas adiei os encontros sine die.

Passei à fase de me mimar: um gin com pepino e pimenta, como eu gosto, e uns livros que me inspirem a dizer palavrões.

Acho que inspiraram. Pelo menos o gin.