Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, leituras e imperdíveis por aí

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, leituras e imperdíveis por aí

o sábado aperta

CF6F71CF-69D6-45DA-AC01-DF63B4C188D9.jpeg

 

O sábado aperta, com o sol a dar o ar da sua graça.
O sábado aperta, com o canto dos pássaros que já não rumam a sul, alimentados por aí assim que acaba o verão.
O sábado aperta, com os risos das crianças que percorrem, nas suas pequenas bicicletas, o parque em frente.
O sábado aperta, nas mãos dos vizinhos que leem um livro na varanda e que, de quando em quando, as enlaçam.
 
O sábado aperta ainda mais quando corre o mar com os olhos.
Quando lhe adivinha a areia próxima, agora inacessível, onde queria mergulhar os pés, sacudir a solidão e o interminável dos dias.
 
O sábado aperta quando lhe encerram os passos,
mas a vida aperta quando lhe proíbem o mar...
 
 
 
 

primeiro dia de férias

B312B584-3658-45CB-8083-82BACCA44288.jpeg

Querido Diário

O primeiro dia de férias foi uma emoção.

Fiz uma paella fantástica que depois digeri no Continente, correndo pelos corredores a ver se batia recorde do tempo que lá passo.
Levei duas máscaras, dizem que agora é trendy contra o vírus inglês... 

Era bom que as compras dessem para duas semanas, mas não acredito, estes fulanos comem que se fartam. 

Agora é que me arrependo de ter ofertado a arca frigorífica à ex-sogra. Fazia-me falta. E a sogra também, sempre me fazia uns almoços.

Fui buscar o filho mais velho ao trabalho para não andar no comboio. Mentira, a verdade é que a essa hora já estava outra vez farta de estar em casa. 

Respondi ao mail de uns alunos que perguntavam que, já que as aulas são proibidas, se eu podia "dar workshops de História da Cultura e das Artes on-line". Parabenizei-os pela criatividade nas adiei os encontros sine die.

Passei à fase de me mimar: um gin com pepino e pimenta, como eu gosto, e uns livros que me inspirem a dizer palavrões.

Acho que inspiraram. Pelo menos o gin.

 

 

um sábado como qualquer outro

395ACCA5-21B3-4508-9A43-C94B553DEC7F.jpeg

Amanhece-me o dia como de habitual, com o sol entrando pela janela.
Preguiça boa, esta de sábado...
Lembro-me que estamos de novo presos em casa, e preparo-me para a quietude dos dias. Dos fins-de-semana, pelo menos.
 
Quietude?
O trânsito da marginal de Cascais não pára.
Rolam os carros como noutro sábado qualquer.
 
Que não haja ilusões, isto não é um confinamento.
 
Vou continuar o meu livro até à hora de alguém cá de casa ir buscar o almoço, já encomendado para take-away.
É das poucas formas que posso ajudar, para que se vão mantendo à tona os que são o elo mais fraco desta cadeia.
 
Eles são só os primeiros, a seguir virão os outros e vai chegar a vez de todos, menos dos senhores do mundo. Esses, cada vez melhor.
 
E aqui, fechados como nêsperas, ficamos a ver como levam um vizinho após o outro, até entrarem na nossa casa.
 
 
 
 

manhã de liberdade

66459FAF-C564-4BF8-9841-14A89E2D8155.jpeg

Amanheceu, e eu no aconchego, um olho aberto e o outro fechado, adivinhando o sol a erguer-se lentamente, conforme os raios se iam estendendo sobre a colcha, provocadores.
 
Sentia o ar frio do quarto, o calor do gato adormecido, a respiração de quem dormia a meu lado. "Estão os dois vivos", pensei, "já é um bom começo".
 
O sol continuava, cada vez mais intenso, cada vez mais difícil de ignorar. "Vou fazer um café, pode ser que te acalmes", pensei para os raios insistentes. Mas um expresso duplo depois, ainda me ofuscavam a tentativa de continuar a ler.
 
"Ganhaste" e pousei o livro. "Já aí vou ter".
Meia hora depois, o cheiro a mar entrava, frio e forte pelo nariz, pelos ouvidos, pelos olhos...
"Bom dia, dois cafés e os respetivos pastéis de nata".
 
E ali fiquei com o meu livro, interrompido por vezes pela melhor das companhias e uma boa conversa.
Outro café. E mais deste mar de Inverno que amo de paixão.
Não se deita fora uma manhã de liberdade. 


foto: Carcavelos no Inverno