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Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, leituras e imperdíveis por aí

Crónicas do Chão Salgado

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22 anos com um Asperger

2303 pb

 
Há 22 anos que vivo com um Asperger, uma perturbação no espectro do autismo. Aliás, dizem as modas que essa designação já nem existe... mas como nunca fui de modas, o meu filho mais novo é um Aspie, sim.
Desde muito cedo se percebeu que era diferente e, apesar de só se fazer o diagnóstico aos quatro anos (autismo grau 3), fui logo preparada para lidar com uma criança diferente e para a possibilidade dele só dormir mais de três horas seguidas pelos quatro anos...foi aos três anos e meio que dormiu uma noite completa. De um dia para o outro. Dias difíceis.
 
Começou a andar com dez meses e só falou aos três anos.Teve terapia da fala muitos anos, e ainda tem problemas na expressão verbal, que aprendeu a "disfarçar". A pediatra dizia que não falava porque não queria. De facto, a primeira coisa que me disse foi uma frase completa... E eu fiquei ali, estarrecida, a olhar... Não cantava, não sabia as cores, nada daquilo que as outras crianças do infantário sabiam. Não sabia, nem queria saber. Em termos de comportamento era terrível! O clássico miúdo com hiperatividade e défice de atenção, agressivo para os colegas. "Falta de umas boas palmadas", diziam os mais próximos. "Défice cognitvo", diziam no infantário e nos círculos de "amigos".
 
Completamente sem apoio e furibunda, mandei tudo ao ar. Agarrei nos filhos, no gato e mudei de cidade. Larguei o meu gabinete e troquei também de profissão, o que me permitiu acompanhá-lo mais de perto.
Entrou para o primeiro ciclo. No primeiro ano, não sabia ler nada, nem juntar as letras em sílabas. Eu não conseguia ensiná-lo. No segundo ano, teve uma professora de quem gostava imenso... e aprendeu a ler num mês. A desenhar, só fazia uns rabiscos abstratos, geométricos e intrincados, nada mais! No final de cada dia, sentava-me com ele e repetia tudo o que tinha sido dito nas aulas. E foi assim até ao sétimo ano.
A médica dizia que adquiriria mecanismos de auto-regulação pelos doze anos o que, efetivamente, aconteceu, tendo passado a controlar melhor as suas reações. Passou, entretanto a ser seguido por uma psiquiatra especializada no perfil dele.
 
Pelos treze anos, apercebi-me que o seu drama pessoal era não compreender porque era diferente dos outros. E tomei uma das melhores e mais importantes decisões da minha vida: explicar-lhe porque era diferente. Falei com ele, ele falou com a médica, pesquisou imenso sobre Aspergers... e a vida mudou! Foi como se o mundo se abrisse para ele! Percebeu que era diferente, que havia muitos mais assim, que não tinha que tentar ser igual aos outros. Que não havia problema em gostar de estar sozinho, andar em círculos à volta da escola, ter os interesses dele. Se soubesse... tinha dito mais cedo, mas tive sempre medo da forma como iria reagir. 
Foi no oitavo ano que me disse "podes confiar em mim, ja não preciso de ajuda". E assim foi, passou a cuidar das tarefas da escola sozinho. Entretanto, ja tínhamos adotado algumas práticas para se organizar, como ter um pequeno bloco onde escrevia tudo o que era importante para todas as disciplinas. Passou, inclusive, a pôr o despertador, apanhar o comboio na linha de Cascais e ir sozinho para a escola.
 
Adotou algumas bengalas que ainda hoje tem: o telemóvel está sempre a tocar com lembretes: tomar banho, pôr lixo na reciclagem, pôr a mesa, aspirar o quarto, passar a roupa. Sim, faz questão de passar a roupa dele (exceto camisas :D) porque quer ser autónomo e preparar-se para viver sozinho. Mas tudo a horas certas! Também cuida da conta bancária, de onde paga as propinas da faculdade, compra o passe e os livros que quer. 
Foi seguindo o percurso dele e quando entrou para o secundário, tornou-se um bom aluno, sedento de conhecimento. É extremamente metódico e organizado, tirou uma licenciatura na Clássica de Lisboa, fez um estágio profissional e agora está a tirar um mestrado. O sonho dele. Quando acabar, teremos a questão da carta... a médica diz que ele não conseguirá tirar, é-lhe dificil prestar atenção a várias coisas ao mesmo tempo. Mas ele quer, vai experimentar. Logo se vê. 
 
O meu filho filho vai ter sempre dificuldades no mundo, porque é claro para quem fala com ele que é diferente. Fica conotado com limitações cognitivas ou apenas "estranho". Porque o facto é que tudo o que é diferente assusta e afasta, por mais campanhas de sensibilização que se façam. Esta é a realidade. Tenho medo do modo como isto se refletirá no mundo laboral e, quando for viver sozinho, na esfera pessoal... Mas um dia atrás do outro.
Após estes anos de esforço e progresso, é um autista de grau 1. Mas, sobretudo, é um jovem adulto com sonhos, projeto de vida e, acima de tudo... de bem com a vida! O que vier, virá!

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