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Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, & leituras

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, & leituras

As ilusões de um Sábado

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Gosto de tudo o que me dá a ilusão de ser livre. Gosto das manhãs de sábado sem despertador, da maneira como se aproximam das tardes em que o único relógio que interessa é o que o corpo impõe.

Gosto dos pensamentos que não me leem, sejam as crenças mais profundas ou as imagens que em décimas de segundo me fazem questionar as sinapses.

Numa altura em que sabem tudo de mim cada vez que ligo o gps ou faço uma compra on-line... nestes dias em que a manipulação é tanta que, para ter acesso a outros pontos de vista de gente credível é preciso escavar fundo... a liberdade, é uma ilusão.

Neste tempo em que, a mando dos poderosos me retiraram e continuam a retirar liberdades fundamentais.

Valham-me os sábados. Valham-me os dias em que a agenda está limpa; em que só me rodeiam aqueles com quem não tenho que escolher palavras. E o sol, a praia, os livros e a arte.

Abençoadas as ilusões com que vamos trocando as voltas à realidade!

 

 

“O Inferno são os outros”

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Passam-me os posts de uma qualquer rede social na frente, e pululam os que me tentam convencer que há algo de errado comigo. Ou fico perto de pessoas que me fazem mal, ou carrego a carga de gerações, ou a minha relação com o meu pai não permite que “siga em frente”… E uma panóplia de soluções, do coaching à mesa radiónica.
É muito cómodo atribuir a factores externos os problemas que enfrentamos na vida, os mesmos erros que cometemos sucessivamente. É por isso que a religião foi criada; para podermos pedir a intervenção de algo que consiga alterar o que nós não conseguimos.
É igualmente aprazível afastarmo-nos de pessoas que são “tóxicas”… “mesmo os pais”, como dizia uma jovem num perfil patrocinado do Instagram. A sério? Vai tão longe o egoísmo? Vai, e é incentivado em nome do bem-estar. O que importa o que os pais fizeram por nós desde que entrámos no mundo; o que importa que o colega esteja a “sugar-nos a energia” porque está só e necessita de alguém que o ouça… não importa nada, o bem estar pessoal é o que interessa.
Mas que merda de mundo é este?

A Voz Humana - Almodóvar

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“A Voz Humana”. Uma curta-metragem que, quando termina, sabe a tão pouco… ficava ali outro tanto tempo a ouvir e ver Tilda Swinton num Cocteau como Almodovar o sentiu. Numa interpretação livre, como ele diz, mas poderosa. A linguagem forte, os cenários onde a cor se relaciona com a mensagem, se impõe por vezes ao próprio movimento. O inesperado, mesmo para quem conhece o texto ou viu outras interpretações. Ou para quem conhece Almodóvar, que continua a aventurar-se e a correr riscos.
O filme é seguido de uma entrevista a Almodovar e Tilda onde se fala do processo criativo, da metodologia de trabalho do realizador. E este mergulhar no mundo de Almodovar, agora pelas suas próprias palavras, quase nos faz desculpá-lo por não ter feito a curta… maior!

Poesia, Daniel Faria

As ameixas são fruta por que tem que se saber esperar. Ficar em guarda até ao momento em que a pele ainda estala sob dentes quando se trinca, mas já não se consegue segurar o sumo que corre para fora das margens da  boca.
Daniel Faria tem uma obra assim, “no ponto” certo para ser devorada como ameixa em Julho.
Daniel morreu cedo demais, até Cristo teve mais tempo. A brevidade do tempo que teve toma conta de todas as emoções que se tenham ao ler a sua poesia. Essa orfandade das obras que não foram escritas, domina à medida que se vira mais uma página. E o espanto pela beleza das palavras sucumbe à tristeza de ser um ponto final. Talvez seja essa a razão porque é tão difícil falar da poesia de Daniel Faria… ou talvez seja mesmo porque não há muito mais a dizer depois da ler. Fala por si, na transparência abrupta da alma de Poeta.
 
 
 
 

Da Finitude

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Lembro-me dos Verões eternos da infância, das tardes imensas em que, deitada na terra de olhos no nada, ouvia as cigarras. E as noites, em que se contavam estrelas cadentes e os grilos formavam então o coro que se ouvia.
Algures pelo Verão adentro, já nem nos kembravamos como começara e duvidávamos que as tardes arrefecessem ou as folhas caíssem, num sabor a eternidade que só há quando o resto podia nem haver.
Agora, os Verões chegam com sabor a efémero, vivem-se as tardes quentes com sofreguidão, na antecipação do fim e braços abertos a guardar o que couber de sol e mar.
 
Aqui, parada na rua, olho para as crianças do quarto esquerdo que saem e penso Será que também eles têm Estios infinitos como os meus? Será que gozam os dias na languidez da despreocupação ou no frémito da correria para a praia?
Depois, olho para a vizinha do primeiro, que sai de capeline e túnica branca, tomando o caminho da praia numa lentidão compassada. Vai sempre para o seu cantinho, entre a pequena enseada que as famílias com filhos pequenos preferem e o areal extenso ocupado pelos grupos de adolescentes barulhentos em redor das pranchas de surf. À tarde, o Clube com a piscina, mais perto de casa e mais sossegado.
 
E entre a minha infância, a infância das crianças do quarto esquerdo e a possibilidade da rotina de banhos da Dona Helena estar mais próximo que aquilo que penso, decido que Amanhã mando tudo às urtigas e vou à Costa!
Decisão tomada e já não me sabe tanto a azedo a finitude do Verão… ou da vida.
 
 

Os Amores do Senhor Nishino, Hiromi Kawakami

Hiromi Kawakami “é uma das escritoras contemporâneas mais populares do Japão”, assim termina a apresentação na badana de “Os Amores do Senhor Nishino”, da Casa das Letras.
O termo “popular” torna-me logo desconfiada e começo estas leituras com algumas reservas… que aqui logo se dissiparam.
Ao longo de histórias que têm como personagem principal as mulheres que cruzam a vida de Nishino, vamos correndo diferentes formas de amar e desamar. De passar pela carne, pelo sexo. A prosa é de uma sensualidade transparente, por vezes brutal de tão direta, e os sentimentos ora nos são apresentados frágeis, como um pássaro acabado de nascer, ora como um espinho de uma rosa ali, à espera de quem se atreve.
Não terei nunca hipótese de ler o original, mas arrisco-me a dizer que a tradução de Maria João Lourenço só pode ser excelente, pelo ritmo que sinto na obra e o modo como me envolveu.
Um dos contos tem o título de “Uvas”, e é como um cacho de uvas que este livro se saboreia… até porque se o autor da história de Adão e Eva tivesse provado uvas, esta seria certamente a fruta do pecado.

João Tordo, Águas Passadas

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Mais um Verão em que Tordo lança um thriller. Um livro adequado à época, pela leitura fácil e agradável.
Assassinato de adolescentes, uma ligação ao passado, uma investigadora (comissária!) com problemas de adição sexual e uma posição frágil no local de trabalho.
Se o esquema não é dos mais originais num thriller, a trama é sabiamente urdida e em bom português, o que é sempre de salientar - e gostar.
 
Um livro destinado a ir aos tops mas, de forma alguma, o que Tordo tem de melhor. Este Tordo lê-se bem, é uma companhia agradável, mas para quem tem a Triologia dos Lugares Sem Nome entre os livros preferidos, esta leitura leve sabe a pouco. 
Aguardo que Tordo volte às personagens densas, ao obscuro do ser… aos livros que o tornaram um dos meus preferidos. Aguardo.