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Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, & leituras

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, & leituras

Do Fotografar

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Adivinhamos muito das pessoas pela maneira como nos olham… mas muito mais pela maneira como nos retratam.
Por trás da lente, a fixar o mundo, o fotógrafo não consegue escapar a si próprio, à autenticidade do fio poderoso que lhe liga os olhos ao coração; ver e sentir. À sinceridade do ângulo que procura e da luz que escolhe.
A fotografia não mente, mas não é sobre o real. A fotografia não mente sobre o fotógrafo. 

 
Foto: e ao contrário do que sempre acontece, hoje o click não foi meu...
 
 

A propósito de Laços, Starnone vs Ferrante

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É um dos autores que se aponta como sendo Elena Ferrante. Ele ou a mulher, Anita Raja, como alguns preferem. Não prestei atenção à polémica, li os artigos na diagonal e sem interesse. Até que, há uns dois ou três meses, a propósito de Ferrante, alguém me aconselhou um olhar sério sobre a escrita de Starnone. Fiquei curiosíssima e, assim que tive nas mãos o primeiro livro, comecei a leitura dum autor que só conhecia de nome.
 
Excluindo a questão do enriquecimento do casal, informações obtidas numa pseudo investigação jornalística abusiva, há outros aspetos curiosos.
Domenico Starnone é um excelente escritor, as pessoas dentro dos livros, as relações que se estabelecem, as rotinas que nos invadem assemelhando todos quando, interiormente, temos o nosso próprio barrilzinho de pólvora, de que só muda o tamanho do rastilho… existem na vida de qualquer pessoa que se cruza no nosso caminho. E na nossa.
Comparando-o com Ferrante, há pontos de toque relevantes. A Nápoles retratada, os olhos com que a cidade é vista são muito semelhantes. As personagens cruas, nos enganos e desenganos da vida e do outro, muitas com uma poética que parece resistir a soltar-se nas ruas abruptas das cidades… mas que está lá.
A própria escrita, tanto na forma como no modo como a ação se desenrola tem pontos em comum. Embora Ferrante mais minuciosa e Satarnone mais expedito. O mundo do ensino e dos clássicos de que se assomam o autores…
 
“Laços” é uma obra que fala dum casamento, dos filhos. Do que acontece como consequência dos nossos actos ou porque não dominamos, por mais tons de rosa que tenham sido os sonhos e as intenções. O amor não mata a memória, os filhos não crescem para ser pessoas perfeitas e, em cada relação, há mais que uma realidade.
 
E sim, acho perfeitamente plausível que Starnone seja, de facto, Ferrante. E gosto tanto de um como de outro. A esta altura, até prefiro Starnone, talvez porque o último amor é sempre mais forte que o anterior…

Deixem Passar o Homem Invisível, Rui C Martins

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Rui Cardoso Martins é um dos meus favoritos atualmente e este “Deixem Passar o Homem Invisível” está a fazer justiça a “E Se Eu Gostasse Muito de Morrer”, o meu preferido até agora. Descobri-o lá nos alvores do primeiro confinamento, e é daqueles autores de que pode-vir-sempre-mais-um.
 
Escreve como de um fôlego, e as palavras vêm com a poesia das almas que soltam tudo, ainda virgem, cá para fora. Personagens livres da mácula do juízo alheio, do espartilho da forma. É também uma escrita bem humorada, onde vemos um pouco dos personagens que andam por aqui, neste retângulo à beira-mar plantado, portugueses de gema e outros, de gemada, com açúcar e vinho do Porto - sim, sou da época em que isto se comia.
O início de “E Se Eu Gostasse Muito de Morrer” levou-me a um velho programa
de TV chamado “Liga dos Últimos” enquanto algumas cenas deste me levam para os diretos duma qualquer TV.
E vamos saltitando pelas palavras com um sorriso, uma gargalhada, um aperto no coração (que as coisas sérias também trespassam nas que se dizem a brincar) e um excelente domínio do português. O que, por si, já é motivo de regozijo.
 
A história de um cego e uma criança que caem por uma buraco (buracos em Lisboa?) e mergulham no interior da cidade, arrastados por uma enxurrada, é o cenário para muito mais. As infâncias que não são assim tao poéticas, o alimento que é para uns a desventura dos outros. As pessoas nuas e cruas. O amor.
E... e ainda não acabei, mas estou a gostar tanto que tinha que vir cá deixar o meu entusiasmo :)
 
Mas há uma bela com senão; o Rui Cardoso Martins faz tanta coisa que, ao que parece, não lhe sobra muito tempos para escrever livros…
 
 

Serotonina, Michel Houellebecq

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Serotonina, de Michel Houellebecq, foi exatamente o livro indicado para as pausas entre uma enorme carga de trabalho que não serve para nada. Nada como um burocrata desencantado e a crueza da espécie humana para arrancar umas gargalhadas empáticas.
 
Este é num romance com um sentido de humor acutilante, como se esperava de um autor que procura ser fiel a si próprio.
M.H. é direto, incisivo e não traz qualquer visão poética do amor ou do desejo: as coisas são como são, as hormonas guiam-nos e dizem-nos que também chega o tempo de parar. Porque o corpo manda e a cabeça diz que já não há paciência.
É a história de um homem que vem de uma rotina de escritório e deambula entre relações (e memórias delas) ou melhor; anda aos tropeções por esses territórios. As ideias feitas e romanceadas da masculinidade, feminilidade são motivo de sátira, os objetos de desejo provocatórios. Entre outras considerações polémicas que não podiam escapar a alguém com um interesse tão profundo pelo que move o ser humano como M.H.
Uma viagem pelo amor, o desejo o passar dos anos. E, em jeito de M.H., animemo-nos: um bom prato de comida pode ser orgásmico…
 
 
 

Alinhamentos

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Esta Primavera senti, como nunca antes, a cidade despertar ao ritmo da Natureza.
É um ror de desabrochares, uma turbulência de cores que não se fica pelos canteiros mas que se alastra às pessoas. E estas andam por aí em catadupa de risos e roupas frescas, explodindo em movimento depois de uma hibernação forçada. Antinatural e de uma violência que ecoará ainda por muito tempo. 
Um perfeito alinhar com a vida, uma alegria incontida ao sorver do ar do mar e dos cheiros dos jardins.
Que nunca a Primavera e as Gentes estiveram numa sintonia tão perfeita…
 
 
 modelo: Yana Malaki | Maio de 2021
 
 
 
 

Projeto Ligações Perdidas neste dia da Língua Portuguesa

Comemorando o Dia Mundial da Língua Portuguesa, deixo a participação desta língua no projeto artístico de Arte Têxtil WOMEN INSPIRE WOMEN , liderado por Ellis Schoonhoven, na Holanda .
Este projeto juntou 50 mulheres, 50 línguas/dialectos com a mesma mensagem “Lost Connections”na sua língua nativa. “Ligações Perdidas", em português. 
A pandemia tem atrasado a instalação, veremos se em junho se conseguirá levar a cabo...
 
 
O programa dizia que as palavras “lost connections” seriam bordadas à mão, a ouro sobre cru por cada mulher, na sua língua, juntando-se referências culturais.
 
Como referências escolhi a caravela, criada pelos portugueses, que ligou os mundos através dos mares... mares que são força da natureza, mãe de vida e que nos unem, ainda. 
E um pequeno verso de Fernando Pessoa:
“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!”;

Foi um projeto idealizado e executado num confinamento que separou e uniu as gentes e, neste caso... Artistas Têxteis de tantos pontos do globo!
 
 
 

oferecer livros

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A quem gosta de ler, acham os amigos e família que é boa ideia oferecer o último grito do top da FNAC “porque provavelmente ainda não tens”. Errado. Provavelmente, também não quero ter.
Um livro é como um perfume: uns vão bem com a pele, outros com a alma, outros não batem certo com nada do que somos.
Há muitos anos que só uso dois perfumes e só com esses me sinto comigo, nem experimento mais; são a minha identidade. Felizmente já ninguém me traz outros quando tem que escolher à pressa um presente nas lojas do aeroporto. Já nos livros, sou muito mais flexível. Há autores que experimento e nem termino mas outros, volto a tentar, e tentar... afinal, há alguns “autores” de best sellers que até podem ter contratado uma equipa de ghost writers que eu goste, desta vez. E nem copiem trechos de outras outras obras para cumprir prazos.
As melhores das intenções levam também as nossas amigas a oferecer-nos livros porque “adoraram” e acham que nós, porque gostamos de ir jantar com elas, iremos partilhar o mesmo gosto nas letras. Errado, de novo.
E, assim, lá tenho a garagem cheia de caixotes do José R dos Santos, do Sousa Tavares, da Rebelo Pinto, do Paulo Coelho, da Sveva qualquer-coisa e outras coisas destas... enfim, todas as fases de leitura porque passaram as amigas, primas e irmãs...
Nos últimos tempos, entre as frases que mais digo está “a esta altura, só leio uns quantos escritores, fulano, sicrano e beltrano”... É mentira, confesso, mas pode ser que resulte...