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Crónicas do Chão Salgado

Resistir, viver e criar em tempos de grilhetas e estranheza. Sonhar e fazer crescer, por mais que teimem em nos segurar o sopro e salgar o chão dos dias...

Crónicas do Chão Salgado

Resistir, viver e criar em tempos de grilhetas e estranheza. Sonhar e fazer crescer, por mais que teimem em nos segurar o sopro e salgar o chão dos dias...

poetar | mãe fecunda, terra rasa

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 Confinada e voluntariamente exilada (e de férias...), estou à mercê dos dados móveis. E se são fracos!
Não consigo ver a minha lista de leituras ou sequer os comentários. Terei com que me entreter quando voltar🙂
No entanto, vou tentar deixar aqui algum texto todos os dias, assim Nossa Senhora da Internet o permita!
 
 
O ar frio que respiro
é um eco do Tejo,
a lembrar que cheguei, que voltei a casa.
 
A lezíria que piso
acolhe-me a alma,
é minha mãe fecunda, minha terra rasa.
 
 
 
Foto: Ribatejo

férias do mundo

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Os resultados eleitorais demonstram o fraco conhecimento que se tem da história, o poder do voto do ódio e a polarização crescente que toma conta do mundo.
 
Há alturas em que sentimos que não fazemos parte desta sociedade  porque estamos sós, porque não nos enquadramos e vivemos em perpétuo fingimento, porque achamos que ninguém nos quer ouvir.
 
Já passei por todas essas fases, como qualquer ser pensante.
Mas neste momento, o mundo cada vez me repugna mais.
E se lamento ter lançado a ele seres humanos que terão que chafurdar nesta merda, resta-me o consolo de terem as qualidades para o tornar um pouco melhor.
Seres humanos compassivos, que não descriminam o outro pela religião, etnia ou escolha sexual.
Seres que não acreditam na meritocracia e que assumem o seu papel contribuindo para ajudar os que têm menos oportunidades e recursos.
 
Neste momento até agradeço o confinamento.
Vou para casa. Já que me colocaram de férias... é do mundo que desprezo que tiro férias também.

Vou pintar, escrever, falar com os pássaros.
Avisá-los quando se aproxima o milhafre que por lá anda.
 
Ver a terra que dorme, a ganhar forças para a Primavera.
 
 
 
 
 

os dias dos outros

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Dias seguidos por dias. No mesmo casulo fechado ao frio, fechado aos outros.
Começam a intrometer-se nos pensamentos os sons alheios, antes ignorados por um cérebro em contínua laboração.
 
Fico a saber que há por aqui uma janela perra, só abre depois de um safanão.
Deve ser de um quarto, é sempre aberta de manhã, pela mesma hora e fecha-se pouco depois, com outro ruído seco. Hum. Soa-me a arejamento.
No sexto direito, mas não garanto, que tenho pouco ouvido.
 
Alguém fuma muito, e dentro de casa. O cheio sobe pela ventilação, invade a casa de banho.
Deve ser a vizinha do primeiro andar, que vive sozinha e nestes anos nunca largou um "bom dia" ou um sorriso.
 
Nunca vi a vizinha do terceiro. Tem uma empregada interna com uma farda verde e azul turquesa.
Que tem medo de andar de elevador, sobe as escadas carregada de compras.
Nunca vi a vizinha, mas deve ser uma pessoa alegre. Ninguém sorumbático escolheria aquelas cores para uma vestimenta.
 
E na apropriação dos dias dos outros, vou ocupando os meus próprios dias...
 
 

poetar | o tempo

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Vou enchendo as horas de detalhes importantes e imensos nadas.
 
E ao longo das horas, junto a mim a melhor das companhias no tecer do tempo.
 
Por isso, hoje deixo a poesia desse companheiro, que partilha os meus dias e as minhas paixões:
 
"saudades do tempo em que havia tempo
em que havia o lamento de não ter tempo
em que o tempo
lento
não se esvaía
ia
havia
vívido
ido
vivido"


texto: Jorge F
foto: Jorge por Concha, numa das tardes de fotografia

primeiro dia de férias

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Querido Diário

O primeiro dia de férias foi uma emoção.

Fiz uma paella fantástica que depois digeri no Continente, correndo pelos corredores a ver se batia recorde do tempo que lá passo.
Levei duas máscaras, dizem que agora é trendy contra o vírus inglês... 

Era bom que as compras dessem para duas semanas, mas não acredito, estes fulanos comem que se fartam. 

Agora é que me arrependo de ter ofertado a arca frigorífica à ex-sogra. Fazia-me falta. E a sogra também, sempre me fazia uns almoços.

Fui buscar o filho mais velho ao trabalho para não andar no comboio. Mentira, a verdade é que a essa hora já estava outra vez farta de estar em casa. 

Respondi ao mail de uns alunos que perguntavam que, já que as aulas são proibidas, se eu podia "dar workshops de História da Cultura e das Artes on-line". Parabenizei-os pela criatividade nas adiei os encontros sine die.

Passei à fase de me mimar: um gin com pepino e pimenta, como eu gosto, e uns livros que me inspirem a dizer palavrões.

Acho que inspiraram. Pelo menos o gin.

 

 

a névoa que somos nós

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Revisitar dias antigos é sacudir teias de aranha a palavras que foram ditas,
desempoeirar olhares trocados há tanto tempo.
 
Tanto tempo que nesses dias se dava corda aos relógios.
 
Marcamos o pó do chão com os nossos passos.
Somos espectros de outras noites, do que fomos e ali jurámos ser... e não cumprimos.
Como se estas paredes fossem o grito de uma intenção, um amor largado a meio.
 
Paramos e sabemos que temos duas escolhas à saída: de um lado o sol, do outro a névoa.
 
Foi só o que permaneceu do velho Hotel, a opção de escolher luz ou sombra, sol ou chuva, separadas por uma curva. 
É assim, aquela curva que abraça o Monte Palace... uma metáfora da vida.
 
Olhamos um para o outro. E sem palavras, saímos para o nevoeiro, como sempre... a escolha que nos mostra porque estamos juntos.
 
É a paixão de entrar pelas névoas.
De rasgar o lado mais negro um do outro, a loucura de dar as mãos nas brumas sem saber onde terminam.
 
Estas paredes são, afinal, mais que repositório de memórias; são a marca da vitória na luta que travámos para sermos nós próprios.
 
 
 
foto: Hotel Monte Palace, São Miguel, 2017
 

desafio | caixa de lápis de cor

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Inspirado pelas caixinhas de lápis Viarco, é aqui que encontram o desafio "vamos pintar com palavras", lançado pela Fátima.
Ora, para começar, o azul... 
 

Azul, céu lançado ao mar.
 
Azul. Das águas salgadas onde o sol bate
e me promete que sim, este vai ser um dia de luz.
 
Azul, onde os olhos correm quando o dia abre,
e onde ganho balanço para o que vier.
 
Azuis, por isso, as minhas manhãs
e azul a minha força de enfrentar cada dia.
Mesmo quando nasce cinzento...
 
 

revista Mamute, número um

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Chegou ontem pelo correio o número Um da  Mamute.
 
Nascida de um sonho, é uma proposta de revista de bolso, coletânea de textos em jeito de memoir.
 
Comecei pelo texto da Claudia Lucas Chéu, a escritora desta coletânea que melhor conheço.
Ora, a Cláudia LC falando do impacto da literatura na sua sexualidade, só podia resultar na delícia de texto que ocupou, em luxúria, algumas das mais belas páginas da revista.
 
Sigo, entre a poesia de João Pedro Azul, o diário de viagem de João Sousa Cardoso, a experiência sobre ser um ciclista na cidade, de Nuno Catarino. E a história da Seara, que um edifício também pode ser gente.
 
Tinha que acabar a leitura, foi a minha companhia hoje entre aulas.
É um projeto que vale a pena conhecer!
 
Como fundo, a textura de uma sala de aula, que o dinheiro não chega para tudo, coitadinhos dos banqueiros, temos que os salvar.
E a Parque Escolar faliu entre projetos egóticos e candeeiros do Siza. 

 

*Editado a pedido:

a revista pode ser adquirida ou assinada através do site revistamamute.pt