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Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, leituras e imperdíveis por aí

Crónicas do Chão Salgado

resistir e criar, por mais que nos salguem o chão dos dias | crónicas, memoirs, leituras e imperdíveis por aí

branco - Bela Vista

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Aos acossados pelo mar.
Aos que rompem as ondas e vão fundo,
e se enredam nas algas e rasgam nas conchas.
 
Aos que caminham nus pela areia,
de sorrisos soalheiros e pingando oceano.
 
Aos que regressam a casa e passam a mão no corpo,
branco do sal que fica, signo da pertença aos dias de Verão 
(que todos sabemos, é eterno).
 
Dias branqueados por gaivotas sobrevoando a água,
a espuma desfazendo-se na areia...
a madeira do bar da praia, que sentimos de pés escaldantes.

Branco dádiva, cor que não é cor,
que quando espanta e repudia a luz,
é para mais nos iluminar os dias e as as memórias.


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Escrever é maravilhoso, ler não lhe fica atrás. Obrigada aos que passaram por aqui, foi um prazer fazer a voltinha pelos vossos textos. 

Esta é a despedida do"desafio da caixa de lápis de cor, lêmo-nos por aí.


fotos: Praia da Bela Vista, Costa da Caparica

 

Lisboa, hoje...

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As saudades da luz de Lisboa!
A alegria de pisar a calçada e a tristeza das portas fechadas, das ruas-fantasma...
 
E outra tristeza. A dos pedintes que agora andam pela cidade, de olhar desesperado, envergonhado da pobreza recente. O desempregado da construção civil, da hotelaria, pedindo umas moedas para comer.
Pessoas que há um ano, num domingo destes, se cruzariam comigo passeando os filhos, param-me na rua porque têm contas, porque estão vivos.
São evitados pelos que desconfinam alegremente, como se viessem de uma temporada nas termas. Olhados como se tivessem obrigação de esconder a sua vida em estilhaços, para sossegar os que penduram arco-íris nas janela. Não está bem, não vai ficar bem. 
 
Lisboa... o que será de ti e dos que se acolhem nos teus vãos...
 
 
 

castanho-tempo

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A garganta seca, o peito aperta, as mãos seguram o volante com a pouca força que ainda sinto, agora que me aproximo. Corro a estrada devagar e acompanha-me, pela esquerda, o encrespar leve no azul marinho, o mesmo das tardes dos que estão e dos que partiram. "Vês, filha, o mar está cheio de carneirinhos."
 
Vejo já o fim da praia, onde a faixa de areia é quebrada pelos rochedos batidos às ondas. A espuma desfaz-se contra o castanho da pedra e, ao longe, a silhueta negra do Cabo entrando no Atlântico e deixando, para trás, as copas em verde profundo da Serra. Que oculta, entre outros mistérios, o da minha melancolia. Já ali à frente. "A Peninha nunca te contará nada; é magia, e na magia só te descobres a ti própria".
 
Anoitece, naquela indecisão que a luz toma quando se desfaz e o céu sugere já a noite, num azul cobalto que logo se desmancha em mil laranjas. Antes de partir até à alvorada, a luz brinca por ali, hesitando entre a lembrança do azul claro e límpido da tarde e os rosas e amarelos do adeus ao dia. "Sabes que luz encerra todas as cores, e há olhos que vêem mais que sete?"
 
O meu caminho é o da Casa. E da Casa, lembro-me que se ouve o mar entre o cheiro a citrino e a floresta, que é rugosa ao tacto e só se alcança depois de um caminho íngreme e  estreito. Este, por onde agora entro a custo, sentindo a agressão  dos arbustos, incomodados pela invasão. "Claro que moramos no fim da subida, assim só vem quem nos quer mesmo ver".
 
Passo árvores e muros, o coração acelera... ali está ela, a Casa. Abraçada por uma Primavera de lúcia-lima, que rebenta agora em verde claro de folha nova gritando "não" ao Outono do abandono. Um Outono que  foi ficando, alastrando-se nas folhas caídas, algumas lembrando ainda o vermelho dos últimos tempos de árvore. Logo antes da queda sobre os muros, agora dum castanho escurecido pelo abandono. Castanho-tempo, castanho-memória, patine de esquecimento, do deliberado deixar dos dias lá atrás... é perigoso voltar aos sítios onde fomos felizes, diz-se. Aos sítios que ficaram pertença dos nossos mortos.
 
Mas há lugares que nos possuem;  há madeiras, paredes e muros que, mesmo desprezados, sabem a linha reta para a nossa alma. E foi assim que eu nesse fim de dia, sem escapatória, num olhar feito de abraço, só pude gritar bem alto "cheguei a Casa"!

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Escrito no âmbito do desafio da "caixa de lápis de cor" no blog da  Fátima,. Entram também o José da Xã A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Isabel, a Luísa de Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,, a Miss Lollipop, a Ana Mestre, Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue, o João-Afonso Machado Marquesa de Marvila  e a olga

desafio cartas do correio - a ti

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Escrevo-te para um dia, quando as memórias se enevoarem, te lembres porque te amei e caminhei tão próximo de ti que o teu respirar ecoava na minha boca...
Amei-te para viver contigo a leveza da vida, acompanhar-te nos prazeres a que nenhum de nós se escusa, na alma hedonista e libertina que nos colou ao mesmo caminho.
Amei-te para caminharmos ao som de Bach, mas também para manter o passo quando a vida que nos derrama num conjunto dissonante de notas, espalhadas por uma pauta escrita na desarmonia da dor.
Te digo. Qualquer que seja a música ou o caminho, enquanto os nossos passos forem assim, sincopados, ajustados um ao outro, amorosos e salpicados de saltos de júbilo, caminharei contigo... 
 
 

Proposto pela Célia do blog Raios de Sol, uma carta para o desafio cartas do correio

 

 

 

 

 

22 anos com um Asperger

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Há 22 anos que vivo com um Asperger, uma perturbação no espectro do autismo. Aliás, dizem as modas que essa designação já nem existe... mas como nunca fui de modas, o meu filho mais novo é um Aspie, sim.
Desde muito cedo se percebeu que era diferente e, apesar de só se fazer o diagnóstico aos quatro anos (autismo grau 3), fui logo preparada para lidar com uma criança diferente e para a possibilidade dele só dormir mais de três horas seguidas pelos quatro anos...foi aos três anos e meio que dormiu uma noite completa. De um dia para o outro. Dias difíceis.
 
Começou a andar com dez meses e só falou aos três anos.Teve terapia da fala muitos anos, e ainda tem problemas na expressão verbal, que aprendeu a "disfarçar". A pediatra dizia que não falava porque não queria. De facto, a primeira coisa que me disse foi uma frase completa... E eu fiquei ali, estarrecida, a olhar... Não cantava, não sabia as cores, nada daquilo que as outras crianças do infantário sabiam. Não sabia, nem queria saber. Em termos de comportamento era terrível! O clássico miúdo com hiperatividade e défice de atenção, agressivo para os colegas. "Falta de umas boas palmadas", diziam os mais próximos. "Défice cognitvo", diziam no infantário e nos círculos de "amigos".
 
Completamente sem apoio e furibunda, mandei tudo ao ar. Agarrei nos filhos, no gato e mudei de cidade. Larguei o meu gabinete e troquei também de profissão, o que me permitiu acompanhá-lo mais de perto.
Entrou para o primeiro ciclo. No primeiro ano, não sabia ler nada, nem juntar as letras em sílabas. Eu não conseguia ensiná-lo. No segundo ano, teve uma professora de quem gostava imenso... e aprendeu a ler num mês. A desenhar, só fazia uns rabiscos abstratos, geométricos e intrincados, nada mais! No final de cada dia, sentava-me com ele e repetia tudo o que tinha sido dito nas aulas. E foi assim até ao sétimo ano.
A médica dizia que adquiriria mecanismos de auto-regulação pelos doze anos o que, efetivamente, aconteceu, tendo passado a controlar melhor as suas reações. Passou, entretanto a ser seguido por uma psiquiatra especializada no perfil dele.
 
Pelos treze anos, apercebi-me que o seu drama pessoal era não compreender porque era diferente dos outros. E tomei uma das melhores e mais importantes decisões da minha vida: explicar-lhe porque era diferente. Falei com ele, ele falou com a médica, pesquisou imenso sobre Aspergers... e a vida mudou! Foi como se o mundo se abrisse para ele! Percebeu que era diferente, que havia muitos mais assim, que não tinha que tentar ser igual aos outros. Que não havia problema em gostar de estar sozinho, andar em círculos à volta da escola, ter os interesses dele. Se soubesse... tinha dito mais cedo, mas tive sempre medo da forma como iria reagir. 
Foi no oitavo ano que me disse "podes confiar em mim, ja não preciso de ajuda". E assim foi, passou a cuidar das tarefas da escola sozinho. Entretanto, ja tínhamos adotado algumas práticas para se organizar, como ter um pequeno bloco onde escrevia tudo o que era importante para todas as disciplinas. Passou, inclusive, a pôr o despertador, apanhar o comboio na linha de Cascais e ir sozinho para a escola.
 
Adotou algumas bengalas que ainda hoje tem: o telemóvel está sempre a tocar com lembretes: tomar banho, pôr lixo na reciclagem, pôr a mesa, aspirar o quarto, passar a roupa. Sim, faz questão de passar a roupa dele (exceto camisas :D) porque quer ser autónomo e preparar-se para viver sozinho. Mas tudo a horas certas! Também cuida da conta bancária, de onde paga as propinas da faculdade, compra o passe e os livros que quer. 
Foi seguindo o percurso dele e quando entrou para o secundário, tornou-se um bom aluno, sedento de conhecimento. É extremamente metódico e organizado, tirou uma licenciatura na Clássica de Lisboa, fez um estágio profissional e agora está a tirar um mestrado. O sonho dele. Quando acabar, teremos a questão da carta... a médica diz que ele não conseguirá tirar, é-lhe dificil prestar atenção a várias coisas ao mesmo tempo. Mas ele quer, vai experimentar. Logo se vê. 
 
O meu filho filho vai ter sempre dificuldades no mundo, porque é claro para quem fala com ele que é diferente. Fica conotado com limitações cognitivas ou apenas "estranho". Porque o facto é que tudo o que é diferente assusta e afasta, por mais campanhas de sensibilização que se façam. Esta é a realidade. Tenho medo do modo como isto se refletirá no mundo laboral e, quando for viver sozinho, na esfera pessoal... Mas um dia atrás do outro.
Após estes anos de esforço e progresso, é um autista de grau 1. Mas, sobretudo, é um jovem adulto com sonhos, projeto de vida e, acima de tudo... de bem com a vida! O que vier, virá!

...num campo de papoilas

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Se uma cor me servisse como sapato perdido depois do baile, era o vermelho. Aquele tom da flor aprisionada no celofane,  em molhos de afetos desajeitados, kitsch, de historieta de cordel.
Também aqueloutro, o da luz sanguínea lançada pela echarpe sobre o candeeiro, abat jour de filme de terceira, alongando a noite até à madrugada.
E a cor que me precede a nudez, na roupa que largo em salpicos vibrantes pelo chão, delicia de voyeur... E logo os beijos, que caem como cerejas, húmidos como bagos de romã, rolando pelo corpo até pararem num qualquer sítio já suado.
Ou as paredes nas tardes de motel, na pressa do sexo, que a taxa dobra e nada basta, nada chega para tanta cegueira por prazer, que vermelho é cor de fogo, de ânsia, cor de urgência, cor de agora-ou-nunca...
 
...mas hoje, não. Hoje sou só uma mulher exausta de tanto querer,  tanto amor e desamor, esvaída por esses corpos, deitada à luz num campo de papoilas.


 
 
fotografia: Terena, Alentejo
 
Escrito no âmbito do desafio da "caixa de lápis de cor" no blog da  Fátima,. Entram também o José da Xã A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Isabel, a Luísa de Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,, a Miss Lollipop, a Ana Mestre, Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue, o João-Afonso Machado Marquesa de Marvila  e a olga